Cara, você morreu e está difícil acreditar. Soube há pouco, lendo uma publicação de um amigo no Facebook.
Ainda não sei o que houve, como foi que se deu sua passagem desta para a margem oposta do rio, para a quarta dimensão, para o tempo sem fim. Só sei que você partiu. Para melhor, espero. E creio.
Inesquecível o dia em que nos conhecemos. Pois é, confesso – perdoe-me se desonro sua memória – que estou em dúvida se foi lá no bairro, jogando queimada nas ruas, se foi no colégio, brincando de pega-pega ou esconde-esconde, ou se foi no trabalho. Decerto terá sido mesmo na escola. Lembro-me de seu esforço para colar de mim nas provas de matemática. Ou estou enganado e não era você?
Foi no clube? Na política? Salvo confusão mental, foi na igreja. Acertei? Ou não era você afinando o violão enquanto o padre se preparava e os fiéis chegavam para a missa? Den, den, den, dom, dom, dom... Blémmm!
No cinema, talvez. Roberto Carlos a Trezentos por Hora? Tubarão? Ah, com certeza Os Dez Mandamentos. Ou na fila para comprar o ingresso para ver E.T.? Não me diga que foi para ver Embalos de Sábado à Noite!
Cáspite, como minha memória anda falha.
Pensando bem, que importância tem quando ou como nos conhecemos, não é mesmo? O que importa são os bons momentos que passamos juntos. Memoráveis, como naquela excursão para a praia de José Menino, em Santos. Você na batucada com o pessoal no fundo do ônibus. Eu, sempre comportado, comendo a torta que minha tia preparava para essas viagens, que delícia! A parada obrigatória no Frango Assado, na volta. Ou também não era você? Ou a excursão era para Aparecida do Norte?
É, posso estar me confundindo, mas sei que bons momentos juntos não nos faltaram. As quermesses de São João e da Santa Cruz, por exemplo. Os correios elegantes, que mais enviávamos do que recebíamos, sempre desaforados, as músicas que oferecíamos por meio do serviço de som, "alguém oferece para alguém com prova de muito amor". E dá-lhe Fernando Mendes cantando "aquela menina em sua cadeira de rodas ficava...", ressoando por toda a cidade a partir dos alto-falantes da festa.
Tão triste chorava a pobre menina e nós nos comovíamos. Eu ficava emocionado, imaginando que ela, não a garota paraplégica da canção, e sim o "alguém" destinatário da oferta, soubesse que o ofertante era este seu velho amigo. O amor que eu sentia por ela era verdadeiro, mas não era correspondido, você deve se lembrar. Paixão que arrastei por dez anos, dos onze aos vinte e um. Acho que foi você quem me disse que ela não merecia meu amor. Hoje vejo o quanto você tinha razão. Só não estou certo de ter ido com você a alguma quermesse. Mero detalhe.
Agora você se foi. Como será daqui para a frente sem você? Sem suas piadas do tipo tiozão do pavê, seus comentários políticos de tia do WhattsApp, seu humor sempre elevado, embora por razões equivocadas? Ou sem sua ranhetice? – eita, que já não estou bem certo se você era o tipo de pessoa legal ou chata p’ra caramba.
O fato é que você morreu. Soube agora, agorinha mesmo. Li num post de um amigo, que suponho comum, no imenso obituário dos anônimos que é o Facebook.
O filho da mãe desse nosso amigo só postou que você nos deixou. Botou lá a imagem de um laço de fita preto, tascou luto como título, falou da dor que sua perda lhe causou, recheou o texto de elogios à sua pessoa e fez o desfavor de não mencionar seu nome. Filho batuta!
Percorri todos os malditos duzentos e cinquenta e três comentários, todo mundo confrangido, todo mundo expressando condolências, todo mundo dizendo o quanto você era uma pessoa querida, generosa, bondosa ao extremo, mas nenhum lascrifento citou seu nome. Nem um!
E nada de citar como se deu seu passamento, se por acidente, doença, mal súbito, excesso de sobrevida, nada!
Outro dia, uma amiga querida escreveu que havia perdido a filha. Num esforço rápido de memória, não consegui sequer me recordar se ela tinha mesmo uma menina, além dos dois marmanjos que conheço. Mesmo assim, apressei-me a postar meus pêsames, sinceramente condoído.
É curioso que as pessoas façam questão de frisar, nessa hora, que seus votos são sinceros, realce que, por óbvio, torna duvidoso o sentimento expressado. Os meus, embora eu tenha dispensado o uso do adjetivo, como é meu hábito, eram mesmo dotados da mais sincera sinceridade. Até que descobri que "filha" era a cachorrinha da desventurada. Apaguei ligeiro, antes de pagar mico e passar tamanha vergonha em público.
E quem de fato acabou morrendo, quem diria, foi você! Logo você, e assim, sem prévio aviso, como é de costume nessas ocasiões. E eu aqui, coração enlutado, debulhando-me em lágrimas por você, sem ao menos saber por quem os sinos dobram, por quem meus olhos se desfazem em águas salgadas.
Vá em paz, meu querido. Ou querida, não faço a mais vaga ideia. Aviso que não irei ao seu velório e cerimônia de inumação, por uma questão de reciprocidade. Ou de ausência dela. É que sabemos que você ficará me devendo a retribuição dessa derradeira homenagem. Assim, ficamos quites, não é mesmo?
Meus pêsames a todos os seus familiares, dos que amavam você até os que lhe reservavam ódio profundo – afinal, ninguém está livre de parentes desse espécime –, extensivos aos demais amigos, os verdadeiros e os falsos.
Que repouse em eterna quietude essa sua alma; quanto à minha, aqui seguirá viva, embora doravante atormentada por não saber a quem dirijo este réquiem.


Como todas as suas crônicas , excelente . Retrata com elegância e precisão a maior ironia da vida: seu fim, ainda que seja para um desconhecido. Penso que a finitude temporal dos seres vivos seja uma injustiça ontológica . Como em outros textos, colore de significado a vida cotidiana , preenche de sentido os momentos mais simples .
Excelente e enigmática crônica