Meu colega de trabalho da sala ao lado da minha chama-se João e, em homenagem a ele, vivo cantarolando Belchior. "João, o tempo andou mexendo com a gente, sim; John, a felicidade é uma arma quente".
O tempo andou mexendo comigo e a felicidade sempre me atingiu à queima-roupa. O fato é que, à beira de ingressar na idade sexy — calma! Será só em novembro do ano que vem —, tenho me transformado numa "manteiga derretida", que é como eu e minha saudosa mãezinha, dona Cida, chamávamos minha irmã Eliana, que na infância chorava por qualquer coisa.
Não que eu me debulhe em lágrimas, nao é isso. Ouvir as canções do Roberto, por exemplo, me comove. Parece sempre que ele as fez, cada uma, para mim. Estava há pouco, após sair do banho, tentando cantar com ele "O Portão" e minha voz embargou.
É que estou me preparando para, daqui a pouco, ainda hoje, voltar à amada terreola depois de mais de quarenta dias confinado no apartamento em que moramos durante os dias úteis, em Jacareí. Quarenta dias de dores intensas, horríveis, insuportáveis, tudo por conta de uma singela queda da cama que me custou uma fratura numa das costelas.
Após dois anos sem um criado-mudo em Jacareí, para onde nos mudamos um tanto às pressas quando minha esposa assumiu a vaga em Santa Branca no banco em que trabalha e tivemos de montar o apartamento inteiro, geladeira, fogão, guarda-roupa, quase tudo, compramos, enfim, só recentemente o móvel que, por força do politicamente correto, teve seu nome modificado para "mesinha de cama", ou algo assim. Ainda comentarei a respeito desse modismo linguístico em crônica, em breve.
Na noite da estreia do novo móvel, eu estava deitado na cama e fiz um movimento com o corpo, da direita para a esquerda, na intenção de guardar o celular sobre o tal. Creio que por conta da mobilidade reduzida que tenho na perna esquerda, em razão da velha artrose que me acompanha há mais de uma década, e um erro de cálculo da distância e da altura entre mim e o calado serviçal de madeira, eu me desequilibrei e lá se foi este corpão de mais de cem quilos ao chão. No percurso, bati o peito esquerdo na quina da nova e tão aguardada peça do mobiliário. Logo na estreia da bicha!
No dia seguinte, ainda consegui levar Luciana a Santa Branca, voltar a São José dos Campos e trabalhar o dia todo e, ao fim do expediente, passar no mercado. No outro, porém, as dores se tornaram insuportáveis e a ele se seguiram outros quarenta, em que trabalhei em "home office", com muita dificuldade e sofrimento.
Nesse período, encerrou-se o processo de pintura da casa de Capivari, que só pude acompanhar de perto nos finais das primeiras semanas e, por fim, só à distância. Efetuei todos os pagamentos devidos sem constatar o resultado, que estamos ansiosos para ver.
Após esse tempo todo, de ontem para hoje a dor parece ter cedido, finalmente. Ainda foi muito difícil deitar para dormir, mas levantar foi muito menos sofrido. Sentar, levantar da cadeira, parece que tudo melhorou.
Será uma viagem de duas horas e meia para ir, para curtir menos de 24 horas na casa e na terrinha e, em seguida, o mesmo tempo de regresso a Jacareí, mas valerá a pena. A ansiedade é grande.
Não será, ainda, a volta para ficar, como Roberto na canção, nem haverá cachorro a sorrir em frente ao portão, apenas Miúcha miando a viagem toda, mas a felicidade já me atinge, só porque estou retornando para o lugar que tenho para chamar de meu.
E, na segunda-feira, estarei voltando ao trabalho presencial em Sanjuca, cantarolando Belchior e entoando meu tradicional "bom bom bom boooom, bom dia!", ao ritmo da Quinta Sinfonia de Beethoven, que é como cumprimento os colegas todas as manhãs Porque ali, ali como lá, também é o meu lugar.
Sim, o tempo mexeu comigo e a felicidade, de fato, é uma arma quente.
(Luís Antônio Albiero, em Jacareí, SP, na tarde de 30 de julho de 2022).


