Orson Wells à brasileira
Às 20h do dia 30 de outubro de 1938, foi transmitida A Guerra dos Mundos, 17º episódio da série de rádio The Mercury Theatre on the Air, da CBS. A peça foi baseada no romance de ficção científica homônimo de H.G. Wells, publicado em 1898, que conta a história de uma invasão marciana à Terra.
Dramatizada por Orson Welles, a peça radiofônica foi tão realista que causou pânico em várias cidades dos Estados Unidos. Welles era diretor e astro da série de radioteatro. Tinha apenas 23 anos de idade e era considerado por muitos um garoto prodígio.
Nesta semana, o prodígio brasileiro Felipe Neto, já não tão garoto, fez algo parecido. Anunciou, solene e gravemente, o lançamento de sua candidatura a presidente da República.
Se a reação dos ouvintes estadunidenses foi entrar em pânico com a falsa invasão marciana, a da mídia comercial e de expoentes e anônimos da direita e da extrema-direita não ficou longe disso.
No dia seguinte, no entanto, Felipe Neto fez circular outro pronunciamento, este verdadeiro, para dizer que “é óbvio que não sou, nem serei candidato a coisa nenhuma”. Revelou então que a manifestação da véspera era uma peça publicitária para divulgação de uma nova plataforma de audiobuques.
Felipe, como Wells, pregou uma peça.
No caso do estadunidense, a ideia era dar vida à história, o que foi feito como se se tratasse de uma transmissão ao vivo, em que os limites entre realidade e ficção se tornaram imperceptíveis. À época, o rádio substituía os jornais como fonte das notícias diárias. Orson começou o programa esclarecendo que se tratava de uma obra de ficção, mas muitos ouvintes perderam o aviso e alguns ou não prestaram atenção ou, envolvidos pela dramatização, esqueceram-no ao longo da transmissão.
Neto fez o mesmo pelas redes sociais, já aclamadas como substitutas da imprensa tradicional e hoje consideradas a principal fonte de informações da maioria do povo brasileiro.
O jovem influenciador digital não esclareceu, no primeiro anúncio, que era uma peça publicitária, mas as referências ao romance 1984, de George Orwell, eram evidentes. Eu mesmo cheguei a pensar que se tratasse de uma chamada para a leitura do romance em seu clube do livro. Enfim, caiu quem quis.
No dia seguinte, Neto esclareceu que o livro foi de fato a inspiração e o motivo para o discurso:

“Se você já teve contato com a obra deve ter percebido que meu discurso falso do vídeo de ontem foi totalmente inspirado no governo ditatorial que está lá na história do livro. Inclusive, muitas das frases foram copiadas para vocês perceberem. É claro que eu não vou lançar rede social nenhuma para monitorar, controlar as pessoas. Afinal, infelizmente, isso já acontece”.
Foram falas autoritárias que eu fiz de propósito e, se você gostou, talvez você precise ler um pouco mais.
A brincadeira serviu para revelar o quanto a imprensa comercial é constituída por jornalistas intelectualmente despreparados. Não por outro motivo, os principais jornais e seus respectivos portais, que haviam difundido a falsa informação de que Felipe Neto havia anunciado sua candidatura a presidente, caíram de pau e atacaram o influenciador.
O episódio acabou por desnudar a razão pela qual muitos jornalistas da mídia comercial chegaram a dizer, inclusive em editoriais, que era “muito difícil” a escolha entre Fernando Haddad e Jair BolsoNero, na disputa eleitoral de 2018: caso típico de ignorância estrutural.
Como disse Felipe, essa gente precisa ler um pouco mais.
O talentoso juiz “feique”
Eu não me lembro do caso, eu não me lembro de quando foi, mas me recordo perfeitamente de um dia em que, no fórum de Capivari, estabeleci um conceito sobre juízes que se recusam a atender advogados. "São juízes inseguros", vaticinei então.
E me lembro exatamente de a qual magistrado eu me referia. Era um juiz substituto, em início de carreira, de nome extenso, pomposo, inglês. Nome de lord britânico, Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield.
Eu havia feito um pedido de liminar e fui até ele para despachar pessoalmente. Avistei-o da porta do gabinete. Ele me sorriu, mas não quis me atender. “Protocole a petição, doutor”, disse-me. Foi então que, dialogando com um colega no corredor, estabeleci meu conceito sobre a insegurança que, a meu ver, acomete alguns magistrados.
Vejo hoje que aquele juiz tinha alguma razão muito peculiar para ser inseguro, além da intranquilidade sobre questões jurídicas. Nesta semana, ele foi notícia, e por um fato dos mais bizarros que o grande roteirista do Brasil já foi capaz de produzir.
Por razões até agora desconhecidas, o jovem José Eduardo Franco dos Reis, nascido na pequena Águas da Prata, filho de um humilde pintor, resolveu aos 22 anos de idade forjar uma nova identidade e atribuiu a si mesmo o ostentoso nome inglês. Enganou a Polícia Civil e viu que a empreitada tinha chances de ir além. Animou-se e enganou a USP: tornou-se aluno do curso de Direito do vetusto Largo de São Francisco, onde se formou em 1992. Na sequência, enganou o Ministério Público e dele tornou-se servidor, e o próprio Tribunal de Justiça, que o aprovou no dificílimo concurso para juiz de direito, cargo em que atuou por quase três décadas, tendo-se aposentado em 2018 como desembargador.
Só não conseguiu enganar o Poupatempo da Sé, ao tentar obter, em 3 de outubro de 2024, uma segunda via de sua cédula de identidade como Edward. Com os modernos recursos da biometria, o sistema cruzou dados e verificou que as impressões de Edward e José Eduardo eram as mesmas.
Quando recebi pelo WhatsApp a notícia, quase caí de costas! Esse juiz, só pelo nome, já seria inesquecível. Tornou-se inolvidável para mim por conta da história que vivenciei com ele. Dosducéu, eita mundo pequeno!
O sujeito criou um personagem que deve ter impactado a comissão examinadora do concurso pelo nome pomposo e pela fantástica história de que teria tido um "avô juiz britânico". Deu vida à criação por quarenta anos!
Imagino que deva ter sido um menino pobre, envergonhado das origens, dos próprios pais, do nome simplório como o de qualquer brasileiro, e tão cheio de ódio de si mesmo, como o personagem de “O Talentoso Ripley”, de Patrícia Highsmith, que resolveu assumir outra identidade.
Ao vê-lo a distância, da porta do gabinete, ele sentado à mesa de trabalhos, senti fragilidade em sua figura. Jamais poderia imaginar que fosse esse o motivo.
Pense no medo que ele deveria sentir constantemente de que de repente se deparasse com um advogado conhecido de sua cidade natal que, ao reconhecê-lo, gritasse, espantado, Zezinho, você por aqui!?
Descoberto pelo Poupatempo, inventou outro personagem em declarações que prestou à Polícia. Apresentou-se com o nome original, porém, atribuindo-se a condição de um modesto artesão. Alegou ter um irmão gêmeo, dado em adoção pelos pais logo que nasceu a uma família inglesa, que teria sido professor no Brasil e, hoje aposentado, viveria na Inglaterra.
Denunciado pelos crimes de falsidade, desapareceu. O Tribunal de Justiça, logo em seguida, suspendeu-lhe o recebimento dos proventos de aposentadoria.
Convenhamos, o homem é um gênio! Desenvolveu, na vida real, uma trama digna de um romance, como o citado O Talentoso Ripley, ou de um filme de aventura policial como Prenda-me se for capaz, com Leonardo di Caprio no papel de um fugitivo que passa todo o tempo driblando o FBI, até que, ao fim e ao cabo, torna-se seu colaborador (desculpe-me se estraguei a expectativa pelo final, mas asseguro que vale a pena assistir).
Biruta de aeroporto
Nem toda enganação, porém, tem a boa intenção que moveu Orson Wells e Felipe Neto, tampouco a aparente ingenuidade, ainda que criminosa, do juiz Edward, ou de seu “irmão gêmeo”, o artesão José Eduardo.
O problema de contar uma mentira, como diz o presidente Lula, é que o mentiroso fica preso a ela. E, a partir daí, só Deus sabe o que virá . O sujeito pode até se transformar numa biruta de aeroporto, como aconteceu com Silas Malafaia, por exemplo.
O célebre pastor de bovinos, renomado jurista terraplanense e religioso nas horas comerciais, incitou e arregimentou seus fiéis ao cometimento de um golpe de Estado; conseguiu reunir milhares de "velhinhas com Bíblia na mão" que, no 8 de janeiro de 2023, destruíram com fervor cristão e amor patriótico, ou vice-versa, as instalações e objetos das sedes dos três poderes da República.
Presos, Malafaia passou a alegar que não houve tentativa de golpe e que são todos inocentes. Quem fez o quebra-quebra foram infiltrados petistas agindo para derrubar o governo petista.
Processados, passou a pedir anistia aos inocentes e, alma generosa que é, também aos infiltrados petistas, estes sim, culpados.
Condenados, seguiu dizendo que não houve golpe e convocou manifestações pela "anistia aos inocentes” e "fora Lula".
"Fora Lula", mas tentativa de golpe não foi...
E vivas à mentira e à incoerência!
Gúdi jóbi, Eduardo
Outro enganador profissional que vive alegando boas intenções, só que não, é Eduardo Bolsonaro, o mundialmente famoso Bananinha, ex-líder da bancada trampista no Congresso Nacional, que fugiu para os Estados Unidos para, como ele mesmo disse, articular medidas sancionatórias contra o Brasil.
Recentemente, ele gravou um vídeo dizendo-se perseguido por Xandão, o que o obrigou a correr às pressas para as terras de Tio Sam, tão apressadamente que lá estaria instalado em condições precárias. E, na imagem, apontou para um pequeno colchão inflável atrás de si. Distraído como ele só, deve ter-se esquecido de que, dias antes, sua própria esposa, Heloísa, havia divulgado outro vídeo que também viralizou, em que ela mostra o interior da residência onde o casal e filhos estão vivendo. “Casa maravilhosa”, ela comentou, mostrando especialmente o salão de jogos onde Bananaro e os filhos passam horas a brincar.
Seu objetivo declarado para a ida aos EUA era o de trazer o grande irmão do Norte como aliado para as pretensões bolsonaristas de combater a alegada tirania praticada por Lula e Xandão. Na pauta, a fraude nas urnas eletrônicas que levou à tentativa de golpe que culminou com o 8 de janeiro e a aplicação de sanções econômicas ao Brasil.
Eduardo e o neto de ditador Paulo Figueiredo gravaram vídeo para anunciar que haviam passado todo o dia 2 de abril reunidos com Donald Trump tratando desses assuntos. Enquanto gravavam, ao fundo, a centenas de metros da Casa Branca, Trump anunciava em entrevista coletiva as medidas que adotaria em relação às importações, o chamado tarifaço, que em média, em relação a todo o mundo, ficaram em torno de 40%.
Até agora, o engenhoso Eduardo e seu fiel escudeiro neto de ditador já conseguiram:
o reconhecimento do governo Trump de que o sistema eleitoral brasileiro é exemplo para o mundo, recomendando algo semelhante nos EUA;
taxação de 10% sobre os produtos importados do Brasil, a menor das taxas adotadas por Trump em seu tarifaço, que elevou o percentual até mesmo para uma ilha da Oceania onde só vivem pinguins (o único local poupado pelo presidente dos Estados Unidos foi mesmo a Terra Plana).
Parabéns, Edward Lírol Banana-Gold Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield Bolsonaro, pelo excelente trabalho. Lula, Xandão, o povo brasileiro e até o também distraído Gustavo Gayer estão aplaudindo seu desempenho.
Popcorn and ice cream for all
Gostaria imensamente de saber quem foi o engraçadinho que escreveu a listinha de recados que o Inelegível deveria ler para as quarenta mil cabeças de rebanho que se reuniram ontem, 6 de abril, na avenida Paulista.
Tenho para mim que, se não foi um estagiário que pregou a peça, só pode ter sido coisa do filho Carluxo, o intelectual da família, com algum auxílio de Eduardo Lírol Banana-Gold, o que fala inglês e frita hambúrgueres como nenhum outro — e que, por isso mesmo, chegou a ser cotado pelo pai para ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos.
Numa linha, o estagiário ou Carluxo anotou "popcorn" e "ice cream" para lembrá-lo de dizer que a organização do evento estaria distribuindo pipocas e sorvetes aos presentes, que haveria de ser para refrescar do calor esperado para o dia e para matar a fome. Afinal, pão com mortadela, nem pensar.
Por que em inglês? Ah, com certeza, por conta dessa confusão patriótica entre Estados Unidos e Brasil que todos da família costumam fazer.
Na linha de baixo, Carluxo anotou um recado para o mundo, de que o pai estaria sofrendo perseguição por um golpe de estado que, segundo sua visão, não teria ocorrido.
A pronúncia de Zero Zero, decerto treinado por Edward Bananaro, foi de fazer inveja ao técnico de futebol Joel Santana. Ou, quiçá, terá sido este seu treinador.
Enfim, o dia terminou sem anistia, sem pipocas, nem sorvetes.
A única verdade verdadeira…
…é que meu glorioso Capivariano FC foi a Indaiatuba no sábado e lá venceu o aguerrido EC Primavera, trazendo para Capivari o título de campeão da série A2 do campeonato paulista de futebol. Jogou muito meu time do coração.
O Leão da Sorocabana e o Fantasma da Ituana serão os novos participantes da elite do futebol bandeirante na próxima temporada.







Que texto excelente, como sempre , e já disse isso mais de uma vez, cativa o leitor . Como em outros textos, confere sentido aos eventos cotidianos. Nesse texto, os próprios personagens ultrapassam o cotidiano e dão lugar à fantasia , como o juíz . Seu texto também alerta para a necessidade de distinguirmos o real do imaginário, para os que querem a lucidez, porque muitos preferem viver na fantasia, como o filho do inelegível que disse ter conversado com Trump 😂
Forte abraço e ótima quarta-feira