Meu velho faleceu há cinquenta e três anos. Esta é a primeira vez que o chamo de "meu velho". É assim que me chama meu filho, do alto de seus vinte e quatro. Meu pai era muito jovem quando morreu, tinha quarenta anos apenas, e eu, à época, quatro e meio. Não tive oportunidade, portanto. Sequer me lembro se o chamava de pai, papai ou meu pai.
Quando minha existência se aproximava da idade que tinha meu pai ao tempo em que o destino me roubou a convivência com ele, temi que a história se repetisse. Passei, felizmente. Caminho para chegar a cinquenta por cento a mais do que ele viveu. Espero alcançar a meta e, alcançando-a, dobrá-la, como já dizia nossa querida ex-presidenta Dilma Rousseff. E chegar aos cento e vinte, como apregoa Lula.
Foi por essa época que iniciei um processo que batizei de "segurar o tempo". Consistia — consiste, pois sigo nesse esforço — em fazer tudo com menos ansiedade, com mais calma, saboreando cada momento da vida que me resta.
Eu, que nunca fui transgressor de regra alguma — regra que me impus que, por evidente, contém exceções que só servem para confirmá-la —, tornei-me ainda mais rigoroso no trânsito, por exemplo. Se o limite é quarenta por hora, é nessa velocidade que sigo. Se é oitenta, de oitenta não passo. E vou apreciando a paisagem.
Quem não conhece, precisa conhecer a beleza que é o caminho entre Jacareí e Santa Branca e seus túneis verdes, arcos formados por galhos de árvores que vão de uma margem a outra da via e se cruzam no alto. Ou partes da estradinha entre Monte Mor e Sumaré, a lagoa e sua calmaria, as vaquinhas que parecem inertes em seu eterno mastigar. A viagem pela rodovia Dom Pedro também possui trechos admiráveis, sobretudo entre Igaratá e Nazaré Paulista, passando sobre imensos rios e lagos. São exemplos de como tento segurar o avanço do meu tempo. A vida é tão bela, preciosa demais para que a desperdicemos.
Uma de minhas brincadeiras dos tempos em que começaram a nevar as primeiras cãs era dizer que eu tingia meus cabelos de branco porque, afinal, quem confiaria num advogado com aquela — esta, aliás — carinha de dezoito. Não convencia, mas o efeito psicológico, para mim, funcionava.
Funciona ainda. Passei a recusar, ou a aceitar, a velhice incipiente tentando me convencer de que não estou ficando velho, mas ajuntando jovialidade. É comum eu dizer aos mais novos que sou mais jovem do que eles, pois tenho maior acúmulo de tempo de juventude.
“Quando olho no espelho”, porém, noto que “estou ficando velho e acabado”, como cantava Cassiano em música que marcou minha infância, entre os anos 70 e 80. Já na minha adolescência fez sucesso uma canção do grupo Placa Luminosa que dizia “estou ficando velho demais”. A banda, de Valinhos, que teve o saudoso Jessé como “crooner”, nem existe mais. “Crooner”, por sinal, é daquelas palavras que entregam os anos idos de quem a pronuncia. De Jessé, quem ainda se lembrará?
Nas tretas políticas pelas redes sociais, meus contendores mal saídos dos cueiros costumam apontar a imagem encanecida do meu perfil para me chamar de "velho". Para eles, soa como xingamento. Minha resposta a cada um é na linha "torço para que o destino seja generoso com você como tem sido comigo e lhe permita chegar à velhice, porque a alternativa é uma experiência que o impedirá de nos contar a respeito". Não sei se entendem.
Envelhecer é um prêmio que a vida nos concede. O destino não teve com meu velho a generosidade que tem tido comigo. Ninguém deveria ter a vida ceifada tão cedo. Criança alguma deveria ser privada da convivência com seu pai. Não sei o quanto doeu nele, mas sei o quanto dói em mim até hoje. Que vontade de chorar.
(Luís Antônio Albiero, em Jacareí, SP, aos 21 de abril de 2022)
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