Um anjo
Texto publicado na coluna “Crônicas & Agudas”, no jornal “Dois Pontos – Capivari”, edição de 21 a 27 de abril de 1995
Depois de uma curta ausência, por problemas de ordem particular, retomo plenamente as minhas funções no jornal. Afinal, o curso da vida nos impele para a frente como a multidão aglutinada à porta do trem do metrô. Não dá tempo de sucumbir diante das armadilhas que ela própria, a vida, se incumbe de instalar em nosso caminho.
Falo de Mariana, minha filha, que nasceu prematura e lutou bravamente pela vida e contra a morte durante 24 dias. Desde que ela veio ao mundo, tão linda e tão forte, desconfiei que era um anjo. Só não tinha certeza se seria um anjo na terra, que Deus confiaria aos pais, ou no céu, ao lado d’Ele.
Mariana foi a melhor coisa que fiz na vida, a obra perfeita, que fiz em parceria de Luciana, minha esposa. Era tão boa e tão bela que Deus a quis para Si. Ele, por certo, julgou que não éramos dignos de tê-la, ou hábeis o suficiente para servi-lhe de pais, tão preciosa era.
Por mais que a fé nos reconforte, fica sempre um resquício de inconformismo. Principalmente quando se vê a multiplicação atabalhoada de pessoas por este mundo afora. Crianças que nascem sem condições básicas de higiene, crianças de rua que se reproduzem incessantemente, a maioria sem saber que jamais terá um lar. Enquanto isso, realizamos o que se chama de planejamento familiar. Aguardamos o momento certo, as condições econômicas ideais. Fizemos todos os exames médicos necessários, procuramos os melhores profissionais e hospitais... Para tudo terminar como foi.
Essas mesmas observações me fez um pai em condição semelhante, em conversa que mantivemos na Maternidade de Campinas. Ele é psicólogo, mas foi ressalvando que a angústia que sentia era a mesma que a minha, porque nenhum conhecimento teórico de sua profissão era capaz de socorrê-lo naquela hora.
Nem por isso deixou de fazer uma rápida incursão por suas teorias. Foi ele quem me alertou para o momento especialíssimo que viviam nossas filhas, que por sinal tinham o mesmo nome. Quando uma pessoa qualquer passa a sofrer risco de vida, por doença ou acidente, ela, claro, quer manter a vida. Ela luta contra a morte. Um recém-nascido, porém, mal tem a experiência da vida e o que enfrenta é algo totalmente inusitado. Vida e morte então se confundem, separadas por uma linha divisória imprecisa. Ao mesmo tempo em que ela luta contra a morte, luta também pela vida, pela conquista da vida, numa dimensão muito diferenciada da “luta-pela-vida” que enfrenta qualquer pessoa vivida.
Não faz mal. Não há folha seca que caia ao chão se não pela vontade de Deus, dizem os amigos em intenção de reconfortar-nos. Ficou a imagem de uma menina linda, que fizemos questão de dividir com alguns parentes e amigos. Afinal, Mariana era nosso orgulho. Continua sendo e será para sempre.



Não sei o que dizer, essa dor intensa e dilacerante é a pior que um ser humano pode sofrer, penso eu. Lembrei da música do Chico Buarque, ‘Pedaço de mim’. Meus pais também passaram por isso , minha irmã Cristiane faleceu com dois anos e meio, é minha irmã mais velha, nasci dois anos depois dela deixar esse mundo , também é um Anjo que olha por nós lá do Céu