Minha memória afetiva é mesmo glutona, tende a buscar referências no que comia o menino que fui. A mais remota é de um doce de laranja, uma espécie de gelatina, delícia que fazia a nona Natalina (Nina).
Certa feita a nona foi nos visitar — ainda morávamos em Rafard, meu pai era vivo e ela residia na mesma rua, a três ou quatro quarteirões de distância de casa. Foi acompanhada de sua irmã, tia Benedita, uma distinta senhora de São Paulo, e levou um prato da tal gelatina.
Eu tinha por volta de quatro anos de idade e naquele dia, ao ir ao banheiro, afundei-me no vão do assento do vaso sanitário. Ali fiquei preso e precisei chamar por socorro para sair da situação constrangedora, mas vergonha mesmo senti foi quando, além de minha mãe, vieram também as visitas, que riram a valer quando me viram entalado pelas nádegas. Foi reconfortante, porém, ter-me deliciado com a iguaria trazida pela nona.
Passei a vida achando que se chamava "súguli" o doce, que eu nem tinha certeza se era de limão ou de laranja e parecia esverdeado. Com o advento da internet, fiz buscas incansáveis por essa palavra, mas nada encontrei. Tentei "súculi", "súgule", com acento e sem acento, e nada. Até que um dia me ocorreu de buscar por súgli e, eureka!, lá estava. Achei uma receita, e uma só (hoje é possível encontrar algumas, como "sugli", sem acento, mas ainda são uma raridade). É um doce à base de muita laranja. A receita que encontrei falava de doze unidades. É um manjar feito com fubá, que é lançado aos poucos no suco da fruta enquanto ferve, à maneira como se prepara a polenta.
Outra delícia inesquecível feita pela nona era o "subiotti". Recentemente resolvi pesquisar por esse prato na internet e também obtive poucas respostas, quase nenhuma. Nada mais era do que o macarrãozinho a que hoje chamamos "Padre Nosso", aquele curto, de forma cilíndrica com um furo no meio, "irmão" do "Ave Maria" (este bem menorzinho), feito à bolonhesa. Tempos depois, já nos anos setenta, tornou-se campeão de frequência e preferência na merenda escolar. Eu me lembro de nono Antônio (Tone) ralando queijo e recitando "é meio dia, panela no fogo, barriga vazia", dizendo-me "mangia tutto che te fa bene", enquanto tia Hercília, irmã de meu pai, que residia em Piracicaba e vinha com marido e filhos todos os domingos à casa dos nonos, ensinava à sobrinhada buliçosa como comportar-se à mesa.
Foi ainda em Rafard que, acometido eu de bronquite pela mesma época do "súgli", minha mãe, em desespero, passou a recorrer a todo tipo de "simpatia" para me curar da terrível doença que quase me matou nos primeiros anos de vida, desde urinar num chifre de boi (juro, eu fiz isso!) até à que, de todas, me pareceu a mais bizarra. Consistia em comer um prato formado por comidas diversas que minha mãe teve de buscar em nove casas distintas da vizinhança. Imagine o leitor a gororoba que tive de enfrentar. Tinha de tudo num mesmo prato: arroz, feijão, macarrão, pedaços de carnes variadas, todo tipo de molho e coisas que não consegui reconhecer e já não mais me recordo, um prato tão completo com o qual nenhum glutão jamais poderia sonhar. Eu me lembro bem do macarrão parafuso, que se destacava em meio a toda aquela confusão alimentar. Santudeus, eu só tinha quatro anos...
Deu certo, claro. Uns trinta anos depois, finalmente a bronquite desapareceu e sem deixar saudades. Se não foi pela gororoba, nem pelo chifre mijado, terá sido pelo chumaço de cabelo que seu Ninão retirou de mim e implantou num buraco que ele fez no batente da porta de casa na exata altura da minha cabeça, já perto dos meus dez anos de idade. Morávamos então em Capivari, na mesma casinha onde hoje (*) reside meu afilhado Gabriel. Meu cabelo e o de minha irmã (ambos sofremos muito do mesmo mal) ainda devem estar ali enfiados, passados quase cinquenta anos.
Ou terá sido pela simpatia da figueira seca, que o mesmo Ninão me levou a fazer num lugar distante, na zona rural da cidade, onde ele encontrou a árvore. Na verdade, um arbusto desfolhado que já não era do agrado dos céus, pois frutos não mais produzia. Posicionei-me debaixo dos galhos, ele fez uma oração e me benzeu. E se não foi pela árvore de Ninão, quiçá tenha sido pelas cápsulas benzidas do padre de Conchal, a cem quilômetros de Capivari, a cuja paróquia íamos em excursão, espremidos em perua Kombi que saía de madrugada.
Nunca saberei. Há ainda a probabilidade de que tenha sido pela homeopatia que me ministrou a querida médica Flávia Risaliti, de Campinas, que me chamava, a mim e a todos os pacientes homens, de Tarzã. Por esse tempo eu já era casado e o desaparecimento da bronquite deu-se alguns anos depois que abandonei o tratamento. É isso mesmo, abandonei.
Meu pai morreu não muito tempo depois da visita de tia Benedita. Eu me recordo de vê-los conversando no quintal, ele de cócoras, já doente (algo hoje me diz que pudesse ser depressão, mas nunca sequer ouvi dizer qualquer coisa nesse sentido), a tia tentando animá-lo, que arranjasse um emprego, voltasse a trabalhar, que tudo estaria bem. Em razão da morte dele, mudamo-nos para Capivari, para uma casa bem próxima à de meus avós, pais de minha mãe. Embora muito vigorosa no enfrentamento da vida, temia por morar sozinha com dois filhos pequenos. A despeito de morarmos muito perto da casa dos sogros, dos cunhados e da própria irmã, tia Francisca, minha mãe optou por passar a residir ao lado dos pais e, de quebra, ajudar o irmão Antônio, tio Tote, no bar que ele tinha contíguo à casa, o "Bar do Tota" – era Tote na intimidade do lar e Tota para a freguesia do boteco.
No mesmo dia da mudança, finalzinho de 68 ou início de 69, meu avô me convidou para acompanhá-lo até Rafard, até a casa de tia Francisca. A pé. Topei e fomos caminhando pela interminável avenida José Annicchino. Eu tinha cinco anos, a noção de dimensão não era a mesma de um adulto. E lá, ao chegarmos, extenuado pela dura jornada, eu comi um delicioso e inesquecível sanduíche de queijo que tia Francisca nos preparou.
Voltamos também a pé para o mundialmente famoso "Buraco da Onça", nome pelo qual ainda hoje é conhecido o bairro Jardim América, onde passamos a morar a partir daquele dia. E o tal "buraco", para mim, sempre foi uma servidão colada à casa de meu tio, um corredor sem saída formado por uma sequência de casinhas simples, numa das quais morava seu Ninão, o homem do chumaço de cabelo e da figueira seca, e lá no fundão residiam seu Tiquinho e sua filha Neide, a menina que adorava morder o braço de minha irmã Eliana.
No final do beco, em tempos de carnaval, ensaiava a escola de samba Unidos do Jardim América. Formada preponderantemente por negros e comandada pelos vizinhos Cidão e dona Nair, sob os apitos dos maestros Tamba e Celso, a Jardim América ritmou as batidas do meu coração. Os ensaios ocorriam todas as noites, a partir do final de cada ano, no espaço colado à casinha de três cômodos onde morávamos, e ocorriam no horário em que nos deitávamos para dormir.
E assim, entre lembranças de dar água na boca e coração embalado pelo batuque dos negros da Jardim América, começa o meu testemunho da História, relatos da minha passagem pela vida, vista através das lentes "fundo de garrafa" do menino que desde muito cedo enfiou-se atrás do balcão do "Bar do Tota", no glorioso "Buraco da Onça".
(Luís Antônio Albiero, em Capivari, SP, aos 31 de janeiro de 2021)



Maravilhosa crônica . Me vi acompanhando o pequeno personagem, o menino, por entre as vívidas descrições das experiências . Meus parabéns, excelente. Há muita vida em cada detalhe , guiado pela deusa Mnemosine ❤️❤️❤️