Desde que aflorou na sociedade um grupamento político amorfo e relativamente homogêneo, ao qual se pespegou o carinhoso apelido de “coxinhas”, venho observando-os e, mais do que isso, debatendo com muitos deles os rumos do país.
No início, os “coxinhas” eram identificados como eleitores do hoje pranteado extinto PSDB, zumbi que resiste heroicamente à inumação em jazigo perpétuo. A referência era aos servidores públicos do Estado de São Paulo que, a despeito de receberem vale-refeição cujo valor mal dava para comer uma coxinha por dia, insistiam em reeleger seus patrões tucanos ao governo do estado — e o fizeram por quase quatro décadas!
Vem de então o fenômeno a que hodiernamente se dá o pomposo nome de “polarização”, alçado à condição de “o problema” da Nação brasileira, que de modo contraditório alterna com outro, a “falta de alternância no poder” (fenômeno que, como se vê, nunca valeu a sério para o “coxinha” paulista, senão e apenas no âmbito federal).
Todas as eleições brasileiras pós-queda do regime militar foram marcadas por uma evidente e natural polarização eleitoral, que começou com a surpreendente ida de Lula ao segundo turno contra Collor, lá em 1989.
Os eleitores do então jovem e corajoso (ô, nossa! Deus tá vendo…) governador das Alagoas, o “caçador de marajás” emerso para o cenário nacional graças ao impulso luxuoso das Organizações Globo e seus satélites da mídia então homogênea, eram chamados “colloridos”. E ninguém, à época, maldizia a “polarização” entre colloridos e petistas. Naturalizava-se a disputa, como deveria mesmo ser.
Retirado do poder por crime de responsabilidade, Fernando Collor hoje cumpre pena em prisão domiciliar “humanitária” por corrupção que viria a praticar anos depois, já no período de sua redenção e retorno ao cenário político, desta feita como senador.
Com seu afastamento, assumiu a presidência o matuto mineiro Itamar Franco, eleito vice na chapa com Collor, que fez de seu governo um ninho de tucanos. Desse fato nasceria então a primeira célebre “polarização”, entre tucanos e petistas.
Aclamado como “pai do Plano Real”, Fernando Henrique Cardoso, ministro da fazenda de Itamar, foi eleito e reeleito presidente, ambas as vezes em primeiro turno, mas com Lula em seu encalço, em disputas que este chegou a liderar com foros reais de potencial vitorioso.
Assim foi até que a vitória veio, enfim, em 2002, inaugurando a era petista, que se firmou nos três pleitos seguintes, sempre tendo um tucano como adversário — Alckmin, hoje companheiro vice-presidente de Lula; depois José Serra e Aécio Neves, ambos atualmente lembranças desbotadas da memória do eleitorado brasileiro.
Foi a consolidação da polarização entre petistas e tucanos que fez ascenderem os saudosos “coxinhas”.
O tempo, porém, esse imparável senhor dos enganos, incumbiu-se de esclarecer que a polarização nunca houvera sido, de fato, entre tucanos e petistas, muito menos entre estes e “colloridos”, de efêmera existência.
Os coxinhas, então aparentemente simpáticos à Democracia, ao menos na retórica, foram aos poucos tomando feições teratológicas, na forma e na verborragia cada vez mais rancorosa, transformando-se primeiro nos bolsomínions, assim tratados ainda com certo carinho, a quem dirigíamos os tatibitates que se costuma dedicar a crianças levadas, até que evoluíram às características atuais, próximas ou próprias de monstros fascistas e nazistas.

E continuamos falando em “polarização”, como se “o problema” ainda fosse a natural disputa entre duas forças políticas antagônicas no plano ideológico que lideram um dado pleito eleitoral.
Desde os primórdios convivo e debato com os do lado de lá. Gente simples e gente da mais elevada cultura, amigos advogados, juízes, médicos, professores... A cepa é variada e, não raro, qualificada. Desde então cobro deles por que raios não investem em propor rumos ao país, distintos dos que têm sido vitoriosos, já que nunca estão contentes nem com as entregas dos tucanos, nem com as de Temer e BolsoNero, muito menos de Lula e Dilma.
Não, essa gente não parece interessada em substituir os governos petistas por um ou outro igualmente saudável, cujo projeto de país, de nação, cujas propostas de políticas públicas melhor se adequem ao seu modo de pensar.
Enquanto o petista age de modo positivo e apoia um projeto claro e bem definido de país, liderado com êxito por um estadista que resistirá a séculos e séculos de História como exemplar, os que se lhe opõem, opõem-se apenas por singular oposição. Votam contra, jamais em favor de algo ou alguém que tenham por propositivo.
Movidos por preconceitos, alimentam-se e se deixam dominar pelo sentimento de ódio que nutrem ao nordestino de pouca alfabetização, inversamente proporcional à sua inteligência e capacidade de liderança, e à gente que ele representa.
O problema desse segmento nunca foi a polarização, mas a presença constante do petismo em um dos polos das sucessivas disputas, desde a redemocratização.
Não querem construir uma alternativa. Só querem extravasar o ódio contra Lula e contra o PT. Sem perceber, só fazem por consolidar o petismo. Seguem discursando contra a tal “polarização” — que sempre foi entre petistas e antipetistas — e contribuem para mantê-la, pelo que lhes somos gratos, embora ao custo da radicalização e da desarmonização social.

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Luís Antônio Albiero




Ih, atraiu perfil da extrema direita…
Adorei! Estamos juntos!
Pensei em comentar, mas não vale a pena. Só resta lamentar.