A perda recente do grande cronista Luís Fernando Veríssimo me fez rememorar minha trajetória como escrevedor — tenho dito que o escritor, condição que hoje me arrogo, só nasceu em 19 de julho deste ano, dia em que lancei meu primeiro livro impresso, de contos, O Onomaturgo e Outras Histórias.
Esse exercício de memória alcançou os idos de 1977, quando a saudosa dona Stellamaris, professora de português, determinou que fizéssemos em dupla uma certa atividade escolar.
A tarefa me levou à casa de Ademir, um colega muito risonho, dono de um sorriso que se tornaria mais marcante depois de um acidente. Colegas de classe se dirigiam à usina em que morava Fernando, filho do usineiro, também para fazer um trabalho escolar em grupo, quando o ônibus que os levava envolveu-se num acidente de trânsito. Ademir foi projetado em direção ao banco da frente, sofreu lesões na boca e teve de colocar uma prótese em lugar dos dentes frontais. Seu sorriso então tornou-se um tanto prateado, porque ganhou uns araminhos que prendiam a ponte, como eram chamados os dentes postiços, o que tornou ainda mais proeminente sua arcada superior quando ria.
A minha ida à casa de Ademir não teve sobressaltos. Ele morava a umas dez quadras de onde eu residia, na esquina de uma rua paralela à minha, e para lá caminhei sem qualquer incidente.
Nosso trabalho consistia em desenvolver uma redação ou composição. Comecei a escrever um diálogo entre um lápis e uma borracha, cheio das malícias próprias da idade. Tínhamos então treze anos e me lembro de ter feito alguma referência à borracha peladinha.
À medida em que eu desenvolvia a história, ele ria e comprimia seus olhos, o que lhe conferia ares de oriental, talvez de boliviano. Riu sem parar e gostou tanto do resultado do meu trabalho que correu mostrar para a mãe, que costurava num cômodo ao lado. Ela mal o compreendeu, pois ele fez a leitura chorando de rir, desfazendo-se em gargalhadas. Disse-me ao final que precisava levar a Hugo Alexandre, outro colega de classe, que viria a se tornar médico. Ademir era seu fã e decerto foi por influência de Hugo que ele também resolveu cursar medicina.
Vários anos depois, Ademir apareceu em meu escritório de advocacia. Não nos víamos havia muito tempo e ele me contou que era médico no interior da Bahia. Havia cursado medicina em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia — mera coincidência que se parecesse com um nativo sempre que comprimia os olhos ao rir —, e enfrentava dificuldades para revalidar seu diploma no Brasil. Nunca mais soube dele, desde então.
Por conta da agradável lembrança, resolvi pesquisar no Google pelo nome dele. Queria localizá-lo para enviar-lhe um exemplar do meu primeiro livro. Nada mais justo e necessário, afinal, ele ocupa na minha história de escrevedor o papel de primeiro e entusiasmado fã.
A busca no Google me levou a um obituário num jornal de Vargem Grande do Sul, interior de São Paulo. Ademir faleceu em 11 de julho deste ano, uma semana antes do lançamento do meu livro. Lendo os comentários, descobri que ele era médico querido na cidade e na vizinha Itobi, ambas na região de Casa Branca. Nem por um instante imaginei que me depararia com tal notícia, que me causou profunda dor.
Nada me assombra mais do que saber da morte de pessoas da minha idade. Ademir nem foi a primeira perda de um coetâneo. Antes dele, outros colegas de bancos escolares e amigos de infância e juventude já haviam sucumbido à indesejada das gentes.
Acostumei-me cedo às perdas. Meu pai faleceu quando eu tinha menos de cinco anos de idade. Depois, pela ordem, foram-se meu avô, meu nono (avô paterno), minha nona, minha avó, perdas entremeadas pela partida de alguns tios.
A mais significativa foi a perda de minha filha, Mariana, que nasceu em 1995 e viveu 24 dias numa UTI neonatal. Em seguida, minha mãe, já com seus 83 anos, outros tios, meus sogros e uma sequência de primos — sete ao todo, cinco deles mais novos do que eu.
Acostumar não é a melhor palavra, quando se trata de perdas dessa ordem. Só tem sentido porque não existe alternativa, senão aceitarmos e nos adaptarmos à ausência dos entes queridos.
Temo por um encerramento abrupto da minha vida, com tanta coisa que tenho para escrever e para ler. Morreria incompleto, tanto faz fosse hoje, seja amanhã ou em qualquer data anterior à do meu primeiro centenário.
Não faço ideia do que morreu meu amigo. Um dia alguém descobrirá que estar vivo é a maior causa das mortes, desde sempre. Eu espero que do meu atestado conste, como causa do óbito, acúmulo excessivo de tempo de vida.
Ademir se foi e levou consigo seu sorriso constante, platinado, autêntico, embora postiço. Perdeu-se para sempre sua risada espontânea dos olhos semicerrados, que permanece vívida, no entanto, na lembrança dos que ficamos.
Veríssimo, de muito siso e pouca fala, nos fez rir por décadas com suas crônicas impagáveis e, no entanto, nenhum recurso de linguagem o salvou do nem um pouco engraçado desfecho da obra de sua vida.
Nada há tão desprovido de graça como a morte.
Meu primeiro livro impresso, “O Onomaturgo e Outras Histórias”, está à venda no portal da editora “Rua do Sabão”, nas livrarias Martins Fontes, Livraria da Travessa, Livraria da Vila, Amazon, Estante Virtual, Quatro Cinco Um, Magazine Luíza, Rama Livros, Mercado Livre e também, enquanto houver em estoque, diretamente comigo (envie mensagem para meu endereço laalbiero@yahoo.com.br ).
Falo sobre o livro nesta crônica: “Entrevista sobre o meu livro”.
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Me pegou de surpresa a morte de Ademir, fiquei triste com a notícia sem conhecê-lo, mas a forma como você descreveu ele, humanizou de tal forma que parecesse que fosse um grande amigo nosso! Ver alguém importante ir embora é triste e reflexivo, ver a morte de tantas importantes nunca devia ser algo a se acostumar, mas espero que todas essas pessoas tiveram uma vida desejada e bem vivida! Ótima história seu Luís! 👏🏻
Boa noite, Luís Antônio, tudo bem? Muito triste sua crônica, remete ao que, segundo penso e sinto, é uma injustiça ontológica: a finitude temporal dos seres vivos, muito mais dolorosas para nós humanos, na medida em que temos plena consciência dela. Me ocorreu também que a Literatura e as demais Artes são formas de , como nos ensina a Psicanálise, elaborar o luto