Um dia para lembrar…
Coincidentemente, acabei de saber que hoje, 18 de julho, comemora-se um ano da “morte digital” do ex-presidente, que foi proibido pelo ministro Alexandre de Moraes de utilizar as redes sociais, as suas próprias e de terceiros. Foi a forma que Xandão encontrou para estancar os ataques de Sua Excrescência ao Poder Judiciário e as tentativas de interferir nas decisões da Suprema Corte.
Pois é. Se Jair, o Messias, morreu digitalmente em 18 de julho de 2025, eu nasci no dia seguinte no universo denominado Literatura.
Em 19 de julho do ano passado rebentei como escritor. Confesso que foi um parto difícil, quase sessenta anos de gestação. Um autoparto, por assim dizer. Exatos 57 anos depois da morte do meu pai, cinquenta de meu nono (avô paterno).
Foi nesse dia que lancei meu livro “O Onomaturgo e Outras Histórias” (compre aqui, na Amazon — aproveite que está em promoção, 55% de desconto! —; aqui, da editora; ou diretamente de minha própria pessoa, por e-mail ou WhatsApp [*], e receba em casa seu exemplar autografado [ó que chiqueza!]).
Foi certamente um dos dias mais importantes da minha vida, uma espécie de nascimento do terceiro filho, meu sonhado livro impresso, o primeiro em que figuro como único autor (participo, é verdade, de diversas antologias de poemas e crônicas), embora fosse também meu próprio nascer literário.
O lançamento foi na icônica Casa Rosa, um espaço histórico de minha amada Capivari onde o casal Carlos Lopes de Mattos e dona Virgínia Bastos de Mattos criou sua prole de intelectuais, muitos dos quais meus amigos: os filhos Guta, Virgínia, João, autor do excelente livro de contos “Urdiduras”, editora Patuá; o Otávio, só conheço via Facebook; o neto Miguel, do portal jurídico Migalhas, é filho do juiz Carlos Alberto, falecido jovem, a quem também conheci. Carlos, o patriarca, foi professor de francês na cidade entre os anos 50 e 70, escritor, filósofo, tradutor de Espinoza para a famosa coleção “Os Pensadores”, editada pela Abril Cultural [posteriormente Nova Cultural]); sua esposa, dona Virgínia, também era pessoa de elevada cultura, escritora, autora do inestimável “Ronda das Ruas”, dentre outras obras.
A Casa, preservada pela família como “Ponto de Cultura”, pertenceu anteriormente à professora Jovita do Lago, tia do ator Mário Lago, que nela se escondeu por um período da perseguição da ditadura Vargas.
Fui ao evento preocupado com a possibilidade de só comparecerem as treze pessoas de que na véspera me falara Guta, célebre linguista, professora aposentada da Unicamp. Havia bem mais de treze, felizmente.
Destaco as presenças das minhas queridas professoras do primário (nomenclatura dos anos 70), inesquecíveis dona Rosinha Macluf Carravero, a primeira (1971), e dona Mary Odette Pellegrini Jacovelli (minha prima pela linhagem materna de meu pai, os Pellegrini; 1973 e 74), a par de quase uma centena de amigos, alguns vindos de muito longe, como o Alair Oliveira, de Curvelo, Minas Gerais, que veio de Belo Horizonte, onde reside.
Muitos amigos vieram de Americana, Santa Bárbara D'Oeste, Piracicaba, Nova Odessa, Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro.
O graúdo, claro, eram os amigos de longa data de Capivari e Rafard.
A ausência mais longeva que se interrompeu nesse dia foi a do casal Célia e Stander. Há muitos anos Procuradora do Trabalho, Celinha foi, primeiro, uma de minhas auxiliares na secretaria do departamento jurídico do Banespa; logo em seguida, colega advogada do banco. Desde 1994 não nos víamos e foi uma surpresa emocionante recebê-la em minha terrinha.
…outro para esquecer
Outro dia feliz deveria ter sido 7 de junho deste ano. Era um domingo, último dia da Feira do Livro do Pacaembu, quando eu deveria ter promovido uma tarde de autógrafos no estande da editora Rua do Sabão.
Não esperava muita gente, claro, mas ainda que um só autógrafo eu concedesse já me daria por satisfeito.
Fiquei tão preocupado com o evento que, desejoso de visitar todos os demais estandes, conhecer eventualmente outros escritores, percorrer toda a feira, eu engoli minha vergonha e, no sábado pela manhã, comprei uma bengala.
Há alguns anos venho tendo dificuldades de locomoção. Uma paralisia súbita da perna esquerda no curso das passadas já me levou a cair incontáveis vezes. A perna não obedece, o pé esquerdo resiste ao passo, o direito já se projetou e… pumba! Lá vou eu beijar o solo.
Nos últimos quinze anos, devo ter tido umas vinte quedas dessas. Jamais me deixaram qualquer sequela — exceto pelo dedo mindinho direito, que não mais acompanha os demais nos movimentos, especialmente ao fechar a mão.
A última havia ocorrido quinze dias antes, no pátio do condomínio em que resido em Jacareí. Eu ia a uma consulta ao médico cardiologista e carregava, na mão esquerda, uma dúzia de envelopes enormes com resultados de uns duzentos e trinta e sete exames; com a direita, tentava acompanhar a chegada do carro de aplicativo pelo celular. A perna esquerda falhou e… chão! Nada além de dores persistentes, felizmente.
Tive problemas graves, no entanto, por conta de duas singelas quedas da cama. Em sessenta anos de vida, nunca havia caído da cama, nem quando bebê, que me lembre.
Era um sábado de junho de 2024 e eu estava deitado vendo vídeos e lendo mensagens no celular, provavelmente trocando farpas com bolsonarentos pelo Facebook ou WhatsApp, quando resolvi guardar o aparelho no criado-mudo (está bem, mesinha de cama!), que havia chegado naquele dia. Movimentei o corpo da direita para a esquerda, passando o braço direito para alcançar o móvel à esquerda, errei o cálculo da distância e fui ao chão.
Ganhei o amassamento de uma vértebra. Urrei de dor por uns três meses e sinto dores até hoje, passados mais de dois anos.
Pouco antes do lançamento do livro, tive uma segunda queda. Dormia profundamente, alta madrugada, e, súbito, eis-me de novo no piso do quarto… Não faço ideia de o que aconteceu. Sei que ganhei outra vértebra amassada e dores que se somaram às anteriores.
Coisas do meu DNA, costumo dizer: data de nascimento antiga.
Enfim, engoli a vergonha e adquiri a bengala — decisão que vinha adiando desde a primeira queda da cama.
Estreei a falsa terceira perna andando pelo condomínio e, sábado à noite, fomos a uma pizzaria em São José dos Campos. Tudo correu na mais absoluta normalidade.
No domingo, rumamos eu e Luciana a São Paulo para a tarde de autógrafos.
Deixei o carro no estacionamento da FAAP, no final da rua Alagoas, e saí caminhando, calçada abaixo, segurando dois livros na mão esquerda, a bengala à direita.
Os livros eram para a querida Jenny, moradora da Capital, irmã de meu cunhado Joaquim Régis, recentemente falecido. Ela havia adquirido (e pago) um exemplar da minha cota pessoal e eu deveria tê-lo enviado pelo correio. Como, porém, ela me disse que passaria no estande, levei-o para autografar e entregar-lhe pessoalmente. O segundo exemplar era preventivo: vá que eu errasse a dedicatória…
Mal caminhamos dez, vinte metros, eis-me tentando alçar voo sem asas e sem querer. Chão à vista, claro.
Luciana acha que foi por causa da bengala, que eu a teria enroscado numa elevação da calçada. Eu continuo achando que, sem prejuízo dessa hipótese, foi minha desobediente perna esquerda que me abandonou novamente.
Minha esposa e vários passantes pelo local — uma calçada em declive íngreme e com os defeitos próprios dos passeios públicos de todas as nossas cidades — me ajudaram a me levantar.
Uma criança chorou, preocupada com que algo grave tivesse acontecido comigo, e uma mulher me aconselhou a ir a um pronto socorro, pois poderia ter fraturado o ombro.
Fingi estar tudo bem — de fato, a dor no ombro esquerdo era muita — e continuei caminhando.
Cheguei com dores fortes no estande da editora Rua do Sabão, onde fui recepcionado pelo “ciô” (antigamente chamávamos de “dono”; “ciô”, do original inglês "C.E.O.”, soa mais chique, mais pedante) da editora, meu querido amigo Leonardo Garzaro, também escritor (autor do excelente “O Guardião de Nomes”).
Ele e um colaborador prontamente chamaram a enfermeira do evento. Puseram-me em cadeira de rodas, Léo providenciou um táxi, fui ao hospital Leforte do Morumbi.
Eram por volta de 15h. Uma simpática médica, de nome Stephany, me atendeu, solicitou raio-X, tomografia; ela examinou as imagens e o veredito de fato foi de fratura. Prescreveu injeções e comprimidos e me meteu uma tipoia improvisada. Por volta das onze e meia da noite, finalmente me deu alta. Proibiu-me, porém de dirigir.
Àquela hora da noite, o estacionamento da FAAP já estava fechado e só me restava procurar um hotel. Quando nada pior pode acontecer, pode apostar que vai.
Optei pelo Dan In, que eu conhecia de nome porque morei uns meses na rua Maria Antônia, lá no início dos anos 90, em cuja esquina com a Consolação se localiza, e também por conhecer o serviço do congênere de São José dos Campos, onde me hospedei durante alguns meses logo que assumi o cargo de procurador, há oito anos.
Fiz a reserva pelo celular, daquele tipo cruel, não restituível em caso de cancelamento. É pegar ou largar a grana para o hotel.
Chamei um carro por aplicativo para nos levar. Chegando próximo, o motorista comentou que até há pouco a região estava intransitável, já que durante o dia tinha havido a Parada Gay na avenida Paulista, ali pertinho.
Quando paramos defronte o hotel, a rua Maria Antônia fervilhava. O pessoal da parada LGBT (…QIAPN+, eu sei, mas vamos simplificar essa infindável sopa de letrinhas!) fez da rua uma espécie de extensão da Paulista e deu continuidade à festa.
Na porta do hotel, havia um casal sentado no único degrau de acesso. A moça, de cabelos verdes, vomitava ali mesmo. Bem na porta de entrada do hotel!
Superada a nada usual recepção, fomos ao balcão do hotel. Um sujeito careca, cara de poucos amigos, nos atendeu.
— Que dia para escolher este hotel, hein! — comentei.
O Xandão da recepção nada disse, nem sorriu, fechado em copas.
Fomos ao quarto e pedimos medicamentos e uma tipoia cirúrgica (melhor do que a de pano que o hospital me havia dado) pelo I-Food; em seguida, dois lanches do McDonald's da avenida Angélica pelo mesmo aplicativo.
Estávamos morrendo de fome. A ideia original era almoçarmos depois dos autógrafos. O acidente, porém, obrigou-nos à mudança dos planos. Na lanchonete do hospital, comemos apenas uma coxinha e tomamos uma xícara de café com leite cada um.
A tipoia e os medicamentos chegaram primeiro. Ajeitei-a no braço. A dor beirava o insuportável.
Luciana desceu de novo para aguardar o entregador do McDonald's. O careca da recepção já havia dito, na entrada, que não poderia ligar avisando da chegada das entregas porque os aparelhos estavam com defeito.
Minha esposa voltou irritada. O entregador veio de bicicleta e, no balançar do trajeto, os selos dos refrigerantes se romperam e ambos os lanches se molharam. Uma meleca!
Ela quis negociar com o entregador, queria que ele levasse de volta, trouxesse outros lanches, mas o garoto era um haitiano que não compreendia o português, tampouco ela o francês. Ele também se irritou, deu-lhe as costas e foi embora. Esqueceu de levar as luvas.
Do frágil pacote de papelão pingava o refrigerante. Luciana abriu para ver o estado dos lanches e a simpatia “soquinão” da recepção foi logo metendo as mãos em nossa comida para ver como estava…
O máximo de útil que fez foi oferecer uma sacola plástica.
No quarto, desistimos de comer aquela maçaroca. Indignada, Luciana me proibiu até de tomar o sundae que compunha o pacote.
Fiz contatos insistentes, via aplicativo, com a loja do McDonald's da avenida Angélica (grave bem esse nome!), tentando o envio de novos lanches. Respeito zero ao consumidor. O máximo que consegui foi a promessa de reembolso em até trinta dias. Ainda não percebi o crédito na conta, quase cem reais.
Decidimos pedir de outro lugar, que ficasse a uma distância que impedisse o entregador de vir de bicicleta. Chamamos do Pizza Hut de Perdizes. Ao contrário de Luciana, detesto a pizza dessa rede. Chamei uma lasanha e anotei que precisaria de talheres. Adivinhe o prezado leitor, a prezada leitora. Claro, veio sem os talheres.
Já desgastada a relação com o Xandão dos balcões, Luciana se recusou a descer, pedir por gentileza um garfo e uma faca… eu, com o braço doendo muito, dificuldade de caminhar, medo de cair, não quis me arriscar.
Resultado: para comer a lasanha, tive de enfiar a mão direita por baixo da massa, segurando a embalagem com a esquerda — com muita dor, pois era a do braço “entipoiado”. A cada mordida, o nariz encostava na lasanha e se sujava do molho.
Na manhã seguinte, um motorista que havia contratado durante a noite nos levou, guiando meu carro de volta a Jacareí. Lá se foram alguns outros bons centos de reais… Ele voltou de ônibus a São Paulo.
O molho de tomate da lasanha tingindo de vermelho a ponta do meu nariz dá a exata significação de como me senti na noite do dia em que a marca deveria ter sido de felicidade.

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Falo sobre o livro nesta crônica: “Entrevista sobre o meu livro”.
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Luís Antônio Albiero












Parabéns! Espero que tenha se recuperado bem.
Parabéns, Luís Antônio! Muito sucesso!!!