Meu “eu paralelo” na Terra Plana
Quase me estrepei. Fui brincar com fogo, por muito pouco não acabei estorricado.
Primeiro, o incômodo de uma vertigem constante. Caminhando pelas bordas da Terra Plana, tive a sensação de que a qualquer momento poderia escorregar e cair no espaço sideral. Depois, os duros golpes da incompreensão, da esquerda e da direita. Sobrevivi.
Imergi (verbo de cuja raiz, "imersão", “garrei” ódio — mencionei isso na "niusléter" anterior) na Terra Plana e, de lá do fundo do esgoto, tracei as linhas tortas da crônica Notícias de um Brasil Paralelo, em que comento a conquista do Globo de Ouro de melhor atriz pela brasileira Fernanda Torres por conta de sua atuação no filme Ainda Estou Aqui. Quase fui fuzilado pela esquerda, pela direita e, sobretudo, pela facção criminosa que se posiciona à direita desta, a extrema-direita.
Pessoas do meu próprio campo ideológico tiveram dificuldade de compreender. Agiram como BolsoNero e não conseguiram ir além das quatro primeiras linhas. Não saborearam as ironias — decerto porque mal formuladas, pelo que rogo escusas e prometo me esforçar para melhorar — e cuspiram o que na boca lhes pareceu insuportável como fel.
H. M. me chamou de “idiota, desinformado e mentiroso vive na terra plana” (sic). W. S. B. cravou “que postagem de bosta essa. Só podia vir de um esgoto como tal brasil paralelo. Cambada de vigaristas”. A. A. F. foi fundo, chamou minha produção de “crônicas de um ignorante bozoloide viúvo”. R. M. S. foi espirituosa, “claro que não deva conhecer, seus amigos são todos bovinos, eu tbm nunca vi boi ir ao cinema, babacão!!”.
“Por quem me tomas?”, foi o que mais repeti aos afobados camaradas. Sou compreensivo, enganos acontecem nos melhores grêmios ideológicos.
Hermione Fernandes Soares veio em meu socorro (obrigado, amigo!):
Aqui vemos a falta de cultura das pessoas que só porque o autor usou de dois temas polêmicos vieram um monte de acéfalos falar de política e de terra plana, ninguém entrou no link pra saber do que se trata, crônicas, poesia; é um link da casa literária seus acéfalos.
O autor só usou política e terra plana porque sabe que por cultura vocês com certeza não iriam se interessar, como poderiam saber alguma coisa sobre política se nem cultura vocês têm? Como vão saber o que é esquerda ou direita se nem têm o hábito de estudar história?
Do lado de lá, os ataques eram previsíveis. Na linha invariável do “mas e o PT? Mas e o Lula?”, foram de “odeio o PT”, com que me homenageou a leitora Helena M., a ataques a Lula, como fez Sua Baixeza, o nobilíssimo leitor Ítalo H. L. M. W. II, o Conde de Winchester II, que me escreveu que “foi o Lula que perdeu o dedo e achou dentro do brioco do Eduardo Morena” (esse pessoal tem fascínio pelo brioco alheio), e “ninguém viu porque foram os fantasmas do PT que só comprou (sic) bilhetes online. Na bilheteria não aparece nenhum”, com que me brindou Sônia M. A.
Val C. O. escreveu, em letras garrafais, como quem grita, “EU ACHO QUE O NOME DO FILME DEVERIA SER ‘AINDA ESTOU AQUI ESPERANDO A PICANHA’ ”.
Mas também fui surpreendido com resultados alvissareiros. Não, não converti ninguém, imagino, tampouco cultivo tal pretensão. É que muitos dos que lá habitam agiram como os equivocados de cá. Seguiram o Mito — o Micto, como o apelidei — e fizeram a mesma leitura açodada. Devem ter achado a crônica um amontoado de um monte de palavras escritas e estancaram a leitura nas linhas introdutórias. Ou fizeram uso da ultramoderna técnica da leitura diagonal e, sem compreender sequer os pingos nos is, multiplicaram o alcance do meu texto. Sim, uma arquibancada de extremo-direitistas compartilhou a crônica! Foram, até agora, 61 compartilhamentos, a maioria por parte deles. Fui a cada um e deixei meu comentário, “Obrigado por compartilhar. Ah, não se preocupe. Quem nunca antes na história da Terra Plana se enganou, né mess? Luz na mente e amor no coração. Volte sempre à minha Casa Literária.”
A maioria, porém, não me poupou pancadas de tacape. Só não me deram tiros porque, para minha felicidade, insistem em viver como nos tempos das cavernas.
Assim relatados os fatos, passo a explicar.
Escrevi a crônica Notícias do Brasil Paralelo (título original), que assinei como Luís Antônio “Paralelo” Albiero, e a publiquei aqui, nesta minha Casa Literária. Por módicos R$40,00, fiz um impulsionamento na página Crônicas & Agudas, vinculada ao meu perfil lá no Facebook. Recebi uma enxurrada de reações (452) e comentários (486) em apenas quatro dias de veiculação. Com isso, consegui reviver os momentos emocionantes da triste era BolsoNero, quando minha diversão era debater com meus odientos bolsomínions de estimação.
O anúncio de impulsionamento ficou assim:
NOTÍCIAS DO BRASIL PARALELO
Mais de três milhões de pessoas foram assistir ao filme "Ainda Estou Aqui" nos cinemas, mas eu não conheço nenhuma.
Essa gente que insiste em viver lá onde Lizinácio ainda continua vivo e reinando parece que vive mesmo numa realidade paralela.
Aqui, na nossa querida Terra Plana, a vibe é outra.
(Continue lendo, clicando sobre o linque ou imagem)
https://open.substack.com/.../noticias-do-brasil-paralelo...
Tudo começou quando minha amada amiga Augusta, ex-colega do departamento jurídico do extinto Banespa, publicou em seu perfil no Face um recorte contendo a postagem (abaixo) de alguém que, pretendendo criticar a premiação do filme Ainda Estou Aqui, escreveu a estultice que aproveitei no primeiro parágrafo da crônica. Enfiei-me nas vestes do pretenso conferente de bilhetes de cinema e de seus congêneres abilolados e, como uma Alice dos tempos modernos, caí no buraco que me levou ao mundo paralelo denominado Terra Plana.
Fui à Terra Plana para, de lá, relatar a visão que se tem de cá. Foi uma experiência científica, um sacrifício que fiz em nome da arte. Gostei e, em breve, novas notícias desse Brasil paralelo virão.
Para apreciar e divertir-se com as tretas, clique aqui.
Ah, mudei o título para “Notícias de um Brasil paralelo” porque, realmente, o original ficou parecendo propaganda da facção ideológica que tenta a custo de muita falsidade reescrever a História do Brasil, objetivo assumido já na escolha do nome da organização crimodínica.
A propósito, crimodínica significa “que causa dores reumáticas”, e dessas eu entendo muito bem.
DICAS DE LEITURA
Estou lendo Autobiografia Autorizada, do meu biconterrâneo Paulo Betti, de Rafard e Capivari (mencionei na niusléter anterior) e adquiri, pela Amazon, o e-book Krakatoa, da querida Veronica Stigger, ambos assinantes desta Casa. Tudo pelo Kinder.
Recebi, há alguns dias, o precioso 150 anos de imigração italiana em Capivari, de autoria do conterrâneo e amigo J. R. Guedes de Oliveira.
A pouco e pouco e ao mesmo tempo, também estou lendo os romances Enquanto chovia, de Henrique Borlina, colega advogado com importante passagem pela minha terrinha, e Carioba: As Tramas do algodão, de Gilberto Hackmann, com quem trabalhei na Câmara de Americana, SP; e terminando Urdiduras, do conterrâneo João Bastos de Mattos, livro de contos lançado pela editora Patuá, De Bike com a Vida, do outro conterrâneo, meu vizinho de infância e colega dos primeiros anos escolares, Suzinei Antônio da Silva, e Lembranças, Dores e Saudades – Memórias e Mentiras, do ex e sempre vereador de Americana, Moacir Romero. Todos os autores são meus amigos.
Nessa minha maratona de leituras, aproveitando que estou de férias, estou avançando também no delicioso O guardião de nomes, romance do meu editor e proprietário da Rua do Sabão, Leonardo Garzaro, que já se tornou um amigo querido também, editora pela qual sairá em breve meu primeiro livro de contos, O Onomaturgo e Outras Histórias. A obra de Garzaro foi semifinalista do Prêmio Jabuti de 2024 na categoria Livro Brasileiro Publicado no Exterior.
E ainda encontro fôlego para seguir nas leituras esparsas dos clássicos, em especial dos contos, como os de Anton Tchekov, Ernest Hemingway, Júlio Cortázar, Jorge Luís Borges, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Murilo Rubião, Machado de Assis e outros.
QUE XOUDAXUXA É ESSE?
Eram 1h38min de quarta-feira, 8 de janeiro último, início da madrugada do dia consagrado aos patriotários, quando um amigo comerciante da terrinha me chamou pelo WhatsApp para pedir um favor de ordem jurídica. Perguntei-lhe como vai e, de cara, ele me tascou esta:
Tirando Lula taxando meu Pix agora tá indo bem né (sic)
Para sorte dele, sou mesmo compreensivo. E cuidadoso. Claro que fui ao oráculo do século XXI para escarafunchar que xoudaxuxa era aquele, afinal. Óbvio que nada encontrei. A nova feiquinius da velha extrema-direita devia estar começando a circular e, suponho, já havia engolido uma legião de incautos.
O amigo ainda me disse:
Tô bravo com ele e olha que fiz campanha pra ele hein.
Eu, mantendo o bom humor, respondi:
Vou levar até ele seu descontentamento, companheiro! Forte abraço.
Ele:
O Brasil tá brabo meu amigo
Teve, pelo menos, a honestidade de reconhecer:
Este negócio até agora eu não entendi
Não demorou, encontrei, num grupo chamado Caçadores de Fake News, no próprio Zap, o desmentido e o esclarecimento:
A edição da RFB nº 2219/2024, que apenas atualiza Lei de 2003, não traz qualquer aumento de tributação.
📲 Por conta da evolução tecnológica e das novas práticas comerciais, a Receita Federal atualizou as normas vigentes.
🪙 Nas operações por PIX ou TED, além do limite de R$5 mil para pessoa física ou de R$15 mil para pessoa jurídica, a instituição financeira apenas dará essa informação à Receita Federal.
📑 A medida visa o melhor gerenciamento pela Receita Federal, com respeito às normas legais dos sigilos bancário e fiscal.
Ou seja, a notícia era de que a Receita vai cobrar informações das novas empresas que de uns anos para cá passaram a atuar no ramo financeiro de modo exclusivamente digital, como Nu Bank e Mercado Pago, as mesmas informações que há anos já vinha cobrando dos bancos tradicionais, como Bradesco e Banco do Brasil. A extrema-direita acabou traduzindo para o bovinês como “o governo vai cobrar taxa”. Como dizemos na terrinha, esse povo vareia com cobrança de taxa.
Na tarde do mesmo dia, vi um vídeo em que o ministro Fernando Haddad falava em “taxar tudo”, até “o cachorrinho de estimação”. Era falso, claro, produzido por modernas tecnologias de criação de feiquinius que aproveitam a voz e o jeito de falar e distorcem as imagens e a fala de qualquer um.
Veio então o próprio ministro, ele mesmo, de verdade e em pessoa (a redundância, nesse caso, tornou-se uma necessidade imperiosa), para dizer que o tal vídeo era mentira. Com esse tipo de golpe Haddad está mais que acostumado, desde os tempos da nada saudosa mamadeira pirótica às acusações de violência sexual a crianças, evidentemente falsas, mas nas quais muita gente com capacidade de raciocínio acreditou, ou fingiu acreditar, querendo mesmo que fosse verdade. Uma amada amiga de infância chegou a me dizer à época, visivelmente torcendo, que ele seria preso.
O jornalista Alex Solnik, da TV 247, jogou um balde de água fria logo pela manhã do dia seguinte ao dizer, e com razão, que o desmentido do ministro de nada adiantaria lá pelas bandas da Terra Plana, porque bastaria um novo vídeo do Eduardo Bolsoninha desmentindo o desmentido, para dizer que é Haddad quem mente, que seus seguidores acreditariam.
O ministro, claro, tem que enfrentar a mentira esgrimindo com a verdade e cada cidadão que escolha em quem acreditar, se na fala oficial da autoridade pública em pessoa ou na mentira deslavada de um loroteiro contumaz que não se peja de brincar com as fragilidades da democracia.
Depois veio o próprio presidente Lula, de chapéu e agasalho do Curintcha, para demonstrar, na prática, que a mentira era mesmo uma mentira. Apareceu fazendo um PIX de R$1.013,00 para seu time do coração.
Aí já não gostei. Só vou acreditar de fato na mensagem se ele fizer um PIX do mesmo valor também para o glorioso Palmeiras e, na sequência, para meu amado Capivariano FC.
A bola está com você, meu craque presidente.
POR MUJICA
(Do Instagram)
PELA DEMOCRACIA
(Do Brasil 247)
DESCULPEM MINHA INSISTÊNCIA
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150 anos de imigração italiana em Capivari, J. R. Guedes de Oliveira
Autobiografia Autorizada, Paulo Betti
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Enquanto chovia, Henrique Borlina
Carioba: As Tramas do Algodão, Gilberto Hackmann
Urdiduras, João Bastos de Mattos
De Bike com a Vida, Suzinei Antônio da Silva
Lembranças, Dores e Saudades – Memórias e Mentiras, Moacir Romero
O guardião de nomes, Leonardo Garzaro





