Advirto-vos que a história que adiante será narrada é baseada em fatos reais, embora os nomes sejam fictícios, pela óbvia finalidade de preservar a identidade dos envolvidos.
O Reino vivia sua era de máxima prosperidade. Após longos e exitosos anos, o rei Luís XIII viu que sua obra era boa e que era tempo de descansar. Numa rápida solenidade, passou o cetro para a rainha Dilma e recolheu-se em gozo de sua merecida aposentadoria. Nunca antes na história daquele distante Reino uma mulher houvera assumido o comando magno da nação.
Todos os nobres e as mais elevadas autoridades compareceram à solenidade, a par de imenso contingente dos populares.
Estava ali o ministro da Direita Tiro de Sobral, duque da Pindaíba. Andava de um lado para outro, perdido em meio aos convidados. Esforçava-se para que ninguém notasse o enorme fardo que carregava sobre sua consciência porque, em hora crucial, quando o país se encontrava sob ameaça de cair em mãos perversas, resolvera viajar para o Domínio do Leste, onde empanturrara-se de champanhe, croissant e queijo Roquefort. De lá, retornou ostentando medalha de ouro em Tiro ao Próprio Pé e carregando, além do peso consciencial, o sobrepeso de protuberante pança.
Outro que se mostrava igualmente irrequieto era Aécio, o pequeno príncipe de Maquiavel, um principado do centro do império mais conhecido como Leblon das Geraes. Seus olhos sangravam de inveja e ódio, pois considerava-se herdeiro natural do trono.
Ali mesmo o príncipe se uniu em conspirata ao conde Cunha, um líder religioso que comandava a Casa dos Comuns. “Ela não poderia ter sido a escolhida, não poderia ter assumido o trono e não poderá governar”, dizia-lhe ao ouvido o inconsolável invejoso. “Não te preocupes, príncipe Aécio de Maquiavel. Com o Extremo e com tudo, vamos estancar essa sangria de teus olhos”, respondeu-lhe o sacerdote comandante da câmara baixa.
Jair, o bobo da Corte, estava ao lado dos conspiradores e ouviu o diálogo. Espalhou a notícia por todo o Reino, mas era o bobo da Corte e ninguém o levou a sério.
Tempos depois a rainha acabou deposta, num processo provocado por uma criadora de serpentes de nome Janaína, atividade exótica que lhe rendera a alcunha de Jana, a Insana. A acusação era de que toda manhã a rainha se dava ao luxo de pedalar pelo entorno do Palácio com sua bicicleta de quadro de alumínio e aro 29, um acinte aos olhos dos que só dispunham de seus próprios pés para seus transportes. Sua Alteza exercitava suas pedaladas entre seis e sete horas da manhã e só às sete, em ponto, iniciava o expediente, que em geral não terminava antes das dez da noite. Em um ou outro dia houve quem se queixasse do odor pouco agradável exalado pela rainha ciclista, pois ocorreu de não ter tido tempo de perfumar-se antes de se entregar aos ofícios.
Embora discutíveis os argumentos à luz do bom Direito, uma bem orquestrada campanha comandada pel'O Globo Plano — título do periódico de maior circulação por aquelas plagas — levou os súditos a crerem que de fato aquelas pedaladas feriam real e gravemente os normativos legais, conhecidos como Reinações Nasininas, que sucederam às vetustas Ordenações dos tempos coloniais. Jana denunciava o crime aos quatro cantos, bradando e girando uma jararaca coberta pela bandeira nacional.
Juristas renomados do Reino e do exterior apontavam para a fragilidade da argumentação. Diziam que era ridícula a acusação de que pedalar toda manhã das seis às sete e alguma vez deixar de se perfumar ferisse o artigo 85 da Carta Magna, mas o conluio era “com o Extremo, com tudo” e, de fato, a Corte Extrema pronunciou-se no sentido de que a acusação indicava a tipificação do crime. Destacou que a rainha exercera seu direito à ampla defesa e ao contraditório e, portanto, havia sido observado o devido processo legal. Concluiu que, diante desse quadro, nada havia que pudesse ser feito para impedir o evidente golpe de estado, como reconheceu o eminente magistrado Luís, o Barroso, em seu "brilhante e irretocável voto”, elogio inédito que lhe dedicaram os demais luíses da Corte, o Fux e o Fachim. “As instituições funcionam normalmente”, cravaram o decano mendaz e Carminha, a lúcida.
Assim que proclamado o resultado, imediatamente tomou posse o vice-rei Michel, o Breve. Seu governo foi tão obscuro que ninguém notou quando Jair, o bobo da Corte, a título de fazer graça, aproximou-se do vice-rei com uma faca de uso cenográfico e, rindo, simulou um golpe contra as costas do governante. O que o bobo não esperava é que o vice, em pleno exercício do reinado, mas já cansado de seu papel apenas decorativo, pudesse fingir sofrer o golpe deveras. Sua Alteza simulou desmaio e, a despeito de não ter vertido uma só gota de sangue, acabou levado ao hospital, onde foi submetido a delicada cirurgia.
A notícia de que o vice-rei houvera sido esfaqueado como Júlio César por Brutus espalhou-se pelo Reino, embora não passe de feiquinius a versão de que o monarca tivesse dito “até tu, bobo?”, narrativa tão inverídica quanto a própria facada.
O bobo da Corte chegou a ser preso, suspeito da tentativa do falso assassinato. Alegou em defesa que o crime houvera sido cometido por terceiro, um plebeu de nome Adélio, agente do Partido do Sol, e que ele próprio, o bobo, fora quem acudira a vítima, levando-a para o nosocômio, salvando-a da morte. Acabou libertado por ser considerado inimputável, haja vista sua evidente incapacidade de raciocínio. Ex-militar, o bobo da Corte já houvera vivenciado situação semelhante, quando fora encarcerado e expulso do Exército Real por planejar explodir equipamentos da corporação.
Era tal a turbulência que o Reino atravessava que o rei Luís XIII viu-se na contingência de abandonar seu justo descanso e retomar para si a Coroa. A hipótese, porém, contrariava as expectativas do príncipe Aécio de Machiavel, que já não podia contar com o conde Cunha, àquela altura preso por desfalque ao erário.
Lembrou-se então de um antigo aliado, um magistrado obscuro do interior agrícola. Era o pretor Conjo L. A. R. Ápio, alcunhado juiz larápio por Glauber, o documentarista real. Glauber era responsável por registrar o que ocorria na Corte e, por isso, vivia com uma ideia na cabeça e equipamentos de retrato na mão.
Conjo, o juiz larápio, viu no caso a possibilidade de ele próprio alcançar o posto de rei e tudo fez, de legal e de ilegal, para incriminar Luís XIII. Nada encontrou, mas criatividade não lhe faltou. Fez malabarismo jurídico combinado com prestidigitação para condenar o antigo rei por corrupção, porque este houvera recusado vantagem indevida de uma empreiteira. O pretor, autor de uma legislação particular apodada CP-Cu (de Código Penal da Culatra, nome com o qual homenageou a capital da província agrícola onde judicava), criou a figura penal da “corrupção impassiva” e condenou o ex-dirigente público por ter recusado a propina que lhe fora oferecida.
No curso dos acontecimentos, eis que Jair, o bobo da Corte, tornou-se muito popular, sobretudo por ter livrado o povo do jugo que lhe fora imposto por Michel, o Invisível, e aproveitou o vácuo de poder para assumi-lo ele próprio. Dizia contar com apoio da população, que o chamava de mito em grandes aglomerações que ele próprio organizava.
O bobo nada sabia sobre coisa alguma. Era um sujeito limítrofe que fazia graça contando anedotas surradas sobre mulheres, estrangeiros e pessoas de gostos e cores diferentes das suas. Com esse comportamento, distraía os demais integrantes da Corte de então, formada por vetustos homens brancos que ostentavam cãs azuladas e se esforçavam para ocultar desejos tão inconfessáveis quão inescondíveis.
No reinado de Bobo nada era verdadeiro. Fingindo governar, ele recebia toda manhã populares no vestíbulo do domus palaciano e ali exercia o melhor de sua capacidade, que era fazer rir. E as pessoas no cercadinho fartavam-se de gargalhar, felizes.
O Reino foi acometido de grave peste que matava pessoas aos borbotões. Não se diga, porém, que Bobo nada tenha feito, pois indicou magia, emplastos inúteis, infusões e placebos que ofereceu até às emas do palácio, ao mesmo tempo em que se recusou a comprar medicamentos eficazes, o que só fez crescer a mortandade.
O rei fingia enfrentar o mal nomeando ministros que fizeram da pasta um autêntico ministério contra a saúde. Os ministros contra a educação também se sucederam, culminando com uma tríade de pastores que, por inspiração cristã, pediam oferendas para si como ouro, incenso e mirra para que verbas fossem liberadas. Os ministros contra a cultura desnudaram a ópera bufa que foi o período, que passou da encenação de uma peça de Goebbels ao pum de talco espirrado da bunda do palhaço e foi mudando de mãos e bundas até terminar em malhação.
Para o ministério contra os homens de cor o rei nomeou seu mais fiel capitão do mato. Para o ministério contra a Justiça, o famigerado juiz larápio. Seu ministro contra as relações exteriores foi um lunático que bradava contra o globalismo e defendia que a terra era plana, embora quem passou os anos todos no mundo da lua foi o astronauta, ministro contra a ciência e tecnologia. Dizia-se à sorrelfa no baixo escalão que ambos eram ministros das relações extraterrestres.
Houve uma ministra contra a família e contra os Direitos Humanos que descria da laicidade das goiabeiras e do Estado e agia para que meninos usassem azul e meninas, rosa. O ministro contra o meio ambiente empenhou-se em passar o trator e a boiada, incendiar florestas, extrair árvores, pedras preciosas e peixes, inclusive matar índios e jornalistas mal vistos, enquanto o povo se distraía com a peste.
O mais importante foi o ministro contra a economia, apodado Posto Ipiranga pelo rei em razão de seu gosto insaciável por elevar o preço dos combustíveis dia sim, dia também. Sabia ele como bem aplicar suas próprias economias, as quais mantinha em reinos distantes, resguardadas da corrosão inflacionária, embora vulneráveis às frequentes oscilações da moeda internacional que ele mesmo controlava.
Enquanto o povo sofria, o rei Bobo divertia-se em cavalgadas e passeios de barco com grande acompanhamento de apoiadores, empanturrando-se de camarões, picanha e leite condensado. Fingia-se popular comendo frango com farofa com as mãos, espalhando sujeira por todo lado, chafurdando no prato como se fosse o porco que de fato era.
Foi, aos poucos perdendo popularidade, ao mesmo tempo em que se elevavam os clamores pela libertação de Luís XIII e seu retorno ao trono.
O pretor Conjo, que houvera abandonado a magistratura como previamente acertara com o rei Bobo, tornou-se seu ministro, em paga e reconhecimento de sua fundamental contribuição para ascensão e assunção do trono, e a população pode então vê-lo como realmente era, mais bobo do que o rei. Eis que, passado algum tempo, Sua Majestade, num raro ato digno de aplauso, deu um pé-na-bunda no juiz larápio que, de tão forte o golpe no traseiro, projetou-o para o reino do Norte, a cujos interesses este servira com gosto enquanto homiziava sob a toga seus anseios políticos.
Num lance inesperado, porém, uma Corte Extrema envergonhada e já não acoelhada como antes decretou a libertação do rei preso na masmorra da urbe agrícola do interior, ao mesmo tempo em que condenou o pretor Conjo por parcialidade e incompetência.
Libertado, o rei Luís XIII acabou encontrando-se no Palácio com o rei Bobo e o pretor larápio, que retornara do reino do Norte sedento por tomar o lugar de quem lhe vilipendiara as nádegas, maculando-as com a marca indelével de sua botina real.
Trancaram-se os três para uma luta de vida ou morte. Quando, porém, o rei Bobo e o pretor Conjo se deram conta do tamanho com que Luís XIII retornara do cárcere, infinitas vezes maior que qualquer deles, apavoraram-se e correram à praia mais próxima, onde morreram abraçados. As salgadas águas do mar os levaram e os tempos de prosperidade retornaram ao Reino.
(Luís Antônio Albiero, de Capivari, SP, aos 6 de janeiro de 2022)


