Não me lembro de Lula, depois que deixou a presidência, a partir de 2011, ter sido convidado para dar entrevista a um grande veículo de comunicação, jornal, revista, canal de televisão ou da Internet (incipientes os desta, lá no início do período), até seu retorno para o terceiro mandato.
Jair BolsoNero, o Messias, que tramou um golpe de estado, agressor de jornalistas e da imprensa, inimigo confesso da democracia, foi contemplado com uma entrevista quase sem fim, com duas horas e meia de duração, ontem, no canal da UOL, que é do grupo Folha, por ele ameaçada de fechar durante seu governo.
Na entrevista, BolsoNero reconhece que "discutiu com militares o estado de defesa e de sítio", embora negue a minuta do golpe.
Em duas horas e meia de entrevista, nenhum dos jornalistas teve o tino de perguntar "mas conversar sobre estado de defesa ou sítio com militares por quê?" Ou "o que estava havendo no Brasil que sugerisse, inspirasse ou exigisse uma conversa sobre estado de defesa ou de sítio?"
BolsoNero, dentre tantas que já aprontou, compartilhou uma postagem que atacava Janja, acusando-a de ter fugido para a Rússia com "duzentas malas", cheias de dólares e reais, roubados do INSS. Um criminoso irresponsável como esse tem o que a acrescentar ao processo democrático que pudesse inspirar, sugerir ou tornar necessária uma entrevista num grande veículo de comunicação como o UOL, da Folha?
Lula foi à Rússia, comemorar a vitória dos aliados -- estadunidenses, soviéticos, brasileiros e outros -- contra os nazistas, encerrando a Segunda Guerra Mundial háexatos oitenta anos. O que a imprensa noticiou? Que Lula foi se deixar fotografar ao lado de ditadores.
Lula foi à China, de onde voltou com compromissos fechados que representarão investimentos de 27 bilhões de dólares no Brasil pelos chineses. O que a mídia destacou? Um falso "incômodo" que a primeira-dama Janja teria causado no jantar a portas fechadas da comitiva brasileira com Xi Jinping e esposa, dentre outros. Um "incômodo" motivado por uma questão que é hoje uma preocupação nacional também na China, o mal que causam as redes sociais a crianças e, ao menos no Brasil, citado por Janja, a mulheres.
Do episódio resta um mistério: qual dos acompanhantes de Lula no jantar, entre ministros e parlamentares (Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e Elmar Santos, representando Hugo Motta, presidente da Câmara) terá vazado para a imprensa o fato, e desse modo distorcido?
A mesma mídia aponta para Rui Costa, ministro-chefe da Casa Civil, que , segundo "fontes palacianas", já acumularia desavenças ou descontentamentos com a primeira-dama. Interessante que a imprensa, tão zelosa na manutenção do sigilo de suas fontes, tenha-se apressado a apontar um culpado de ocasião, que cai como uma luva para dar credibilidade à narrativa conveniente. Desvia, a meu ver, os olhares que haveriam de recair, naturalmente, sobre Alcolumbre e, em especial, sobre Elmar, de quem se diz que, viajando ao lado de Lula, pelo celular teria votado pela anistia ao deputado Alexandre Ramagem, BolsoNero e demais golpistas.
Entre uns e outros, eu opto por confiar na versão de Lula, de que quem fez a pergunta que tanto teria incomodado Xi Jinping foi ele próprio e que Janja só teria feito explanação sobre a situação do Tik Tok no Brasil que, recentemente, levou uma menina à morte ao participar de um desafio à distância, consistente em cheirar desodorante pelo tempo que conseguisse segurar a respiração. Ela morreu e foram casos como esse que motivaram a preocupação que teria levado Lula e Janja a "incomodar" o lider chinês, que se comprometeu a enviar ao Brasil um corpo técnico para debater sobre redes sociais e sua regulamentação.
Esclarecimentos feitos, e bastante convincentes, haja vista que na mesma data jornais chineses estampavam preocupação com crescente exploração de crianças que se monetizam pela Internet (como revelou o portal Brasil 247), o que fez a mídia? Continuou acusando Lula de ter errado e Janja de ter extrapolado em seu papel de primeira-dama.
Há tempos venho dizendo, desde o primeiro governo de Lula: a imprensa do Brasil não está à altura do momento revolucionário que o país vem vivenciando desde o início dos governos petistas.




