A cena mais cruel de toda literatura que conheço, a que me marcou profundamente e me causa dores na alma toda vez que dela me lembro, foi descrita por Monteiro Lobato no conto “Negrinha”, publicado em 1920, já passados 32 anos da abolição da escravatura (espie o conto aqui, pela Janela da Casa).
Negrinha era mulata, nascida na senzala, de mãe escrava, de quem se tornou órfã aos quatro anos de idade. Criou-se a menina pelos cantos escuros da cozinha de dona Inácia, entre farrapos de esteira e panos imundos, escondida da patroa, que não gostava de crianças.
Descrita como gorda e virtuosa, amimada dos padres, dona Inácia odiava especialmente choro de criança. “O 13 de maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana”, diz dela o contista nascido em Taubaté, SP.
A despeito de sua repulsa a Negrinha, Inácia mantinha-a em casa “como remédio para os frenesis”, diz-nos o autor. Num dia em que a menina chamou a uma outra criada de “peste”, porque esta lhe tomara do prato um pedacinho de carne, a ladra foi queixar-se à patroa, aquela de quem o padre dizia ser “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”.
Diante da queixa, dona Inácia tomou uma atitude severa. Pôs um ovo a cozinhar e, ainda pulando de quente, meteu-o na boca de Negrinha e tapou-a com a mão. Um ovo cozido, ainda fervendo! Na boca de uma criança!
Negrinha abriu a boca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, prática que era D. Inácia nesse castigo, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo.
A lembrança do conto me ocorreu por conta de ter vindo a público, nesta semana, que Jair BolsoNero, o Messias, fez algo parecido com o próprio filho Carlos, o traumatizado Carluxo, o Zero Dois na ordem de sucessão das franquias eleitorais exploradas pela família. Não com um ovo, não chegou a ser tão cruel o amantíssimo pai, mas com um sabonete. A pretexto de fazer o então garoto “lavar a boca” por algum palavrão que houvesse dito — imagine se seria concebível um membro de tão sagrada família a dizer palavrões! —, meteu-lhe o sabonete e segurou-lhe fechada a boca, exatamente como fez a santa Inácia com a pobre Negrinha.
Essa história real saiu da bocarra purulenta do próprio ex-despresidente. BolsoNero, que a contou com absoluta naturalidade em laive comemorativa de seus 71 anos de inutilidade existencial. Ao final, permitiu-se rir o riso assustador de hiena com que todos nos acostumamos a ver desde que ele andou fazendo o mesmo ao se referir às vítimas da Covid, por ocasião da pandemia. O próprio Carluxo publicou a cena em sua conta no X-Twitter.
Essa estranha família, que adora dizer que adversários vivem de mimimi, às choramingas, ama derramar lágrimas por qualquer razão. Primeiro, Zero Zero chorou pela partida do heroico Zero Três, em fuga de um amedrontador bicho-papão para os Estados Unidos, fato de que tratei nesta crônica. Em seguida, foi a vez de o próprio rebento fujão chorar, em entrevista a Ernesto Lacombe.
Não demorou, até Zero Quatro vagiu em discurso na tribuna da câmara de vereadores de Balneário Camboriú, o mesmo Jair Renan a quem Zero Três chamara de “aquele merdinha do seu filho” em resposta a mensagem do pai quando este fora candidato a presidente da Câmara dos Deputados em 2017, Na ocasião, o filho, também deputado federal, estava nos Estados Unidos (vê-se que não é de hoje que ele gosta de estar em terras de Tio Sam) e se esqueceu de comparecer à sessão em que o Micto acabaria tendo apenas quatro votos.
E, claro, não seria Carluxo, o Zero Dois, quem faltaria com seu choro de crocodilo, exibido na mesma laive comemorativa do aniversário.
BolsoNero chegou a dizer, durante a pandemia, que quem tomasse vacina viraria jacaré. Eu mesmo contei minha experiência pessoal nesta crônica. Faltou dizer que quem não se vacinasse seria transformado em crocodilo. E isto, pelo jeito, não era uma corriqueira feiquinius, mas a mais pura verdade. Provam-na as sucessivas lágrimas jamais derramadas pelos membros da reptiliana família, por mais que forçassem na encenação.
Assim, entre lágrimas de crocodilo e risos de hiena, vive a família Bolsonaro.
“Viúva sem filhos” — segue Monteiro Lobato a descrever a personagem dona Inácia —, “não a calejara o choro da sua carne, e por isso não suportava o choro da carne escrava”. O choro da menina “nunca vinha sem razão”, ou era por fome, quase sempre, ou de frio. O autor não nos conta que Negrinha tivesse chorado por conta do ovo pelando que lhe foi enfiado boca adentro, mas é de se supor que tenha derramado lágrimas, e das mais dolorosas, nada que se compare às de crocodilo.
Já a patroa, a que tem “lugar certo na igreja e camarote de luxo no céu”, como dela ironiza o escritor, ao contrário do amoroso pai BolsoNero, teve ao menos a dignidade de não rir do sofrimento que impôs a Negrinha.




