Corria o ano de 1982. Eu trabalhava no jornal Tribuna Regional, de minha cidade (já contei parte dessa história aqui e aqui). Ocupávamos a nova sede e a equipe era pequena, um impressor, um linotipista, um jornalista, alguns entregadores, este que vos tecla, um carregador de piano que fazia as vezes de fotógrafo — Roberto Caetano da Silva, o Picolé — e, recém-chegado, um locutor da rádio Cacique de Capivari, Irineu Barbosa Leal.
Não sei o que é feito de Irineu, que era do Paraná e veio para Americana, de onde se mudou para minha terriola. A última vez que o vi, e lá se vão anos (entre 83 e 84), foi em Indaiatuba, onde ele trabalhava numa emissora de rádio local. Saudades, amigo — caso o destino carregue esta niusléter até você.
Certo dia fomos eu, Irineu e Picolé à quitanda da Landa, que ficava a um quarteirão da sede do jornal. Irineu viu um belo e enorme cacho de bananas e perguntou à proprietária se ela vendia “bananas individuais”. Eu e Picolé caímos no riso e relembramos desse fato por anos a fio, inclusive no último dia em que o encontrei, já adoentado e de cama, próximo de seu falecimento.
Indivíduo, dizem os dicionários, diz respeito ao ser humano, mas nada impede que seja utilizado para individualizar coisas, por exemplo.
Esse fato me voltou à mente assim que vi, pelas redes, o desocupado governador de Minas Gerais, Romeu Azêmola… ops! Zêmula… Não!!! Zema, brincando de macaco na internet, tentando fingir que lhe descia bem, goela abaixo, uma banana com casca.
Ocorreu-me que era um banana comendo um indivíduo de sua própria espécie — daí vir à memória a passagem das “bananas individuais”. A cena bizarra e patética (esta) soa antropofágica. É como o Abaporu, de Tarsila, só que sem a nobreza da razão de ser do indivíduo de cabeça miúda e pés enormes retratado no famoso quadro de minha biconterrânea de Rafard e Capivari. Muito ao contrário.
Com a boca ocupada pela fruta, em típica cena de pornochanchada na qual ficaria melhor seu conterrâneo deputado-mirim, o Moleque Federal, o desocupado não tem como abri-la para responder, por exemplo, à taxação do aço imposta por seu ídolo estadunidense, Donald Trump. Um banana, enfim.
É como Hannibal, the cannibal, comendo um ser humano sem o despojar de suas vestes. Deve ser horrível, por suposto. Comer um banhista na praia do Leblon, por exemplo — digo comer heteramente, parodiando aquele que meus perspicazes leitores e atentas leitoras saberão de quem falo —, deve ser moleza para a azêmola bípede. Ao fim e ao cabo, só sobrará uma sunguinha de nada pra mastigar e engolir.
Mas em Minas não tem praia — exceto, claro, para o ex-governador que despachava do Leblon e hoje reside no ostracismo, mesmo destino para o qual caminha o atual. Quero é ver a zêmula que hoje governa os mineiros comer um sujeito numa cidadezinha do interior de Minas, devidamente trajado com calça resistente de roça, camisa xadrez, meias grossas, chapéu e botas. O bom é que todo mineiro já traz nos bolsos um pãozim de queijo. Com sorte, na outra algibeira pode até ter um cafezim fresquim.
Esse trocadilho infame me fez lembrar de uma marchinha de carnaval dos antanhos, que pode ser recordada neste vídeo, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, sucesso na voz de Jorge Veiga: que me importa que a mula manque, eu quero é rosetar.
Ou, como costumava traduzir para a língua culta meu refinado e finado professor de português, saudoso José Benedito Pinto Antunes, “pouco se me dá que a azêmola claudique, o que eu desejo é esporear”.
Vaca veio pro brejo
A convite do governo brasileiro, o relator especial para a liberdade de expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão vinculado à Organização dos Estados Americanos (OEA), Pedro Vaca Villarreal, veio ao Brasil na segunda-feira, 10 de fevereiro.
Aqui, conversou com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), membros do governo, parlamentares da base e da oposição e representantes da sociedade civil.
Na terça-feira, 11, Vaca foi até o brejo, onde encontrou atolado o gado bolsonarento, a bancada bolsotrumpista de deputados e senadores que relatou o que considera censura no país, como bloqueios de perfis em redes sociais e processos judiciais contra envolvidos nos atentados golpistas de 8 de janeiro de 2023.
Na quarta, reuniu-se com parlamentares governistas, dos quais ouviu que não há censura no Brasil, mas medidas para conter a propagação de feiquinius e discursos de ódio.
Até Jair BolsoNero se reuniu, na quinta, 12, com integrantes da OEA para choramingar suas queixas contra o ministro Alexandre de Moraes. O ex-despresidente reforçou sua lenga-lenga de que estaria sendo alvo de uma perseguição política conduzida pelo STF, de que Moraes manipula depoimentos, realiza pesca probatória e ordena prisões sem denúncia formalizada.
A OEA produzirá um relatório da visita ao Brasil. A CIDH é responsável por investigações de violações de direitos humanos nas Américas e o documento poderá ter impacto político relevante.
Muskito, o pequeno imperador
Se Elon Musk é esse traste que faz das travessuras de menino mimado verdadeiras questões de estado — como acusar o judiciário brasileiro de censurar seu brinquedinho, o X, ex-Twitter, para depois se ajoelhar no cantinho do castigo, cumprindo mansinho as ordens legais da Suprema Corte —, imagine o que será de seu pimpolho, o pequeno Xaeaxi (na grafia original, X Æ A-Xi; esse código de algum projeto ousado da Tesla é mesmo o nome do garoto, juro! Muskito é bem mais simples e soa mais simpático, admitamos) daqui a alguns anos.
Elon Musk cometeu a audácia de falar no Salão Oval da presidência dos Estados Unidos, em pé e metido em trajes mundanos, mais realista do que o rei, como se tivesse mais poderes do que o próprio, ao lado de um calado Donald Trump. A imprensa estadunidense teve a pachorra de contar as palavras que cada qual falou ao seu tempo: Musk, 3666 palavras; Trump, módicas 2487. Consta que Musk chegou a interromper o discurso do chefe, enquanto este o ouviu quieto, tanto ao que disse o dono do X quanto ao que fez e disse seu intrépido filho, o também X, ou Muskito, que roubou a cena.
Pense numa criança buliçosa, indomável, do tipo que não sabe o que são limites porque os pais jamais lhe devem tê-los imposto. Coloque-o ao lado do pai falastrão — que, no recôndito do lar, deve ter dito à família “agora quem manda nos Estados Unidos e no mundo sou eu; afinal, paguei por isso” — e do presidente desse mesmo país. Claro que vai dar a eme que deu.
O menino, decerto inconformado por ver o pai em pé e um sujeito louro e esquisito tomando-lhe o lugar, sentado na cadeira presidencial comprada por papai no mercado eleitoral, foi logo colocando as coisas em seu indevido lugar: “você não é o presidente! Cale essa boca” — teria dito o educadíssimo petiz, um exemplo de refino próprio das aristocracias monárquicas.
Seja como for, me lembrei de Gonzaguinha: “eu fico com a pureza da resposta das crianças”. Mesmo que seja uma criança levada, como Wandinha ou Feioso, da família Adams, ou o próprio Muskito, do aglomerado familiar dos Musk.
O mundo espera ansioso por seu desenvolvimento, Muskito! Quem viver, que nos conte.
Eles sofrem de anistia precoce
A bancada trumpista do congresso nacional brasileiro segue sua marcha insana e irresponsável em favor da anistia já, com o líder Zucco e Nikolas Ferreira à frente.
Essa gente mal acabou de cometer, cada qual a seu modo, mesmo os que não estão sofrendo persecução penal, o crime de atentado violento ao estado de direito e já pede anistia a uns poucos até agora condenados.
Não é com esses que eles se preocupam, por evidente. Estão de olho é no perdão precoce de determinadas figuras, começando pelo ex-despresidente Jair BolsoNero, o Messias, em vias de ser denunciado pela Procuradoria Geral da República, e chegando a cada um deles próprios.
É confissão ou não?
Tantos foram os discursos públicos e tal a normalização de um golpe anunciado que os manés se sentiram à vontade para se autofilmarem em plena prática criminosa. Ninguém me contou, eu vi, co’estas próprias córneas que não são minhas de nascença (transplantadas, faz dez anos).
Passei a tarde de 8 de janeiro de 2023 sem desgrudar os olhos da telinha do celular, acompanhando ao vivo, indignado pela falta de resistência, a movimentação que culminou com vidros estilhaçados dos palácios, obras de arte danificadas e corredores defecados pela escatológica turba. O episódio é o mote do romance que venho escrevendo, A Exitosa Revolta dos Manés.

Scaffedeu-se
Está liberada a temporada de caça aos petistas. A ordem parece ser mesmo de matar, pois há uma nesga do Judiciário disposta a respaldar essa conduta de higiene social, segundo a fala do desembargador Acácio, do TJ paranaense, de que tratei nesta crônica.
A decisão de maior gravidade, porém, coube à lavra de seu colega de Corte:
247 - Após o assassino bolsonarista do tesoureiro do PT Marcelo Arruda ser condenado a 20 anos de prisão pelo crime, o Tribunal de Justiça do Paraná manteve o regime de prisão domiciliar que vinha sendo aplicado a Jorge Guaranho, devido a "razões humanitárias". A decisão atende a um pedido da defesa de Guaranho e determina sua "imediata" soltura.
O relator Gamaliel Seme Scaff respondeu ao habeas corpus e disse que Guaranho "continua muito debilitado" em razão dos disparos que sofreu em retaliação ao ataque à festa de aniversário de Arruda em 2022, quando o bolsonarista invadiu o local para matar o petista.
Assim o sujeito scaffedeu-se de cumprir um único dia da pena imposta, que foi de vinte anos.
Dizer o que mais?







Parece o cão chupando manga.