Dando estrago (#38)
Estragando as surpresas do livro "O Onomaturgo e Outras Histórias". Compareça ao lançamento. Será no próximo sábado, 19 de julho, na Casa Rosa, em Capivari, SP. Endereço completo no final.
O menino retornou da primeira pescaria chateado, claro, com tudo o que lá aconteceu. Depois de ouvir-lhe pacienciosa as lamentações, a mãe lhe fez juras de que a opressão do tio um dia teria fim. Sentindo amargor no espírito, ela lhe preparou um caprichado pão com salame e um suco de laranja.
O tio era mesmo mal-humorado, o menino bem sabia. A mãe dizia que ele era bom sujeito e que fora o casamento desfeito na última hora com Luísa que o transformara. O conto de fadas havia se tornado um melancólico conto de São João. O menino não entendeu, a mãe disse deixa pra lá, um dia você vai entender, e ele saiu à rua carregando desconfianças.
No caminho, cumprimentou o professor Teodomiro, morador da casa ao lado. Ele conversava com Caleb Torres, o locatário dos cômodos dos fundos que se mudara na véspera.
Dali seguiu para a casa de um vizinho mais novo, quadra acima, mas ficou triste ao saber, pelos pais do pequeno, que o amiguinho não poderia vê-lo, pois estava adoentado. Ele disse aos pais do garoto que tivessem fé, que o grande amigo imaginário que mora no céu não permitiria que nada de ruim acontecesse. Não usou exatamente essas palavras, mas esse era o sentido.
No retorno para casa, entristecido com as notícias do amigo, nada boas e muito preocupantes, contou a respeito a Celinho, garoto da mesma idade que também morava na vizinhança. Celinho então lhe falou sobre um mal grave que uma tia praticara contra si.
Teodomiro, ainda do portão de sua residência, ouviu o diálogo entre os garotos e comentou que o senso de justiça um dia haveria de imperar no mundo. Os pequenos sorriram com a ingenuidade própria da idade, que, sem que nenhum deles soubesse, sintonizava com a bonomia do velho.
Caleb havia saído e o aposentado estava com visita em casa, um sobrinho, jovem jornalista que residia no Rio de Janeiro. Estava inconsolável o rapaz. Lamentava que havia perdido a grande chance de sua vida, traído pelas ondas atrativas de alguém a quem entrevistara e que lhe causara profunda perturbação. Os garotos não compreenderam de que ondas falava o moço, mas não quiseram se intrometer na conversa dos adultos. Deixaram-nos a sós e rumaram juntos para brincar em outro lugar.
Teodomiro desviou o assunto e contou ao sobrinho que nunķca mais vira sua madrinha, uma elegante senhora da alta sociedade local, por quem fora apaixonado na juventude. O rapaz contou que soube por Teresa, filha da madrinha, que ela estava já bem velhinha, presa em cadeira de rodas.
O professor comentou lembrar-se de como era grande a casa em que ela, o marido Osvaldo e a filha residiam, luxuosa, forrada de móveis finos. Lembrou-se de o quanto o impressionara a parede branca na sala, imensa, perturbadora, sem janela nem qualquer ornamento. O rapaz brincou que a casa continuava a mesma e a parede, do mesmo jeito.
Confidenciou ao tio que vinha planejando uma viagem. Estava estressado, decepcionado com a carreira, e queria sair sem destino, mundo afora. O tio lhe perguntou:
— E vai com quem?
— Eu e Deus —, respondeu o jornalista, um tanto desenxabido.
Despediu-se do tio e caminhou até o bar da Tata, sua amiga de infância, onde a encontrou irradiando felicidade. Contou que havia, finalmente, encontrado o amor de sua vida, um pedreiro de nome Natale.
— Lembro-me dele, mora aqui perto. É, minha amiga, o amor é fogo que arde sem se ver, já dizia o poeta.
— É texto bíblico — emendou Tata.
— Eita! Não sou versado nesses assuntos de religião, você sabe.
Enquanto conversavam, entrou no estabelecimento um freguês, um baiano recém-chegado à cidade que, ouvindo a prosa, disse que o amor tem suas armadilhas, suas surpresas, e que ela se cuidasse. E principiou a contar a história de seu primo, Amado, de Salvador.
— Era lindo de morrer, todo mundo dizia…
O repórter olhou para o relógio e viu que não tinha mais tempo para continuar ali ou perderia o ônibus de volta à capital. Pediu escusas, deixou os dois, que continuaram a conversa, e saiu a passos largos rumo à rodoviária da cidadezinha.
Precisava retornar ao Rio de Janeiro e o ônibus partiria em minutos. Comprou a passagem do próprio motorista, ajeitou a mochila sobre o banco e sentou-se. Ao seu lado, ia Gabriel, que pelo celular lia um romance.
Percebendo a presença do companheiro de assento, Gabriel parou a leitura, guardou o aparelho e puxou conversa.
— Estava lendo um romance, sobre uma escritora de nome Denise que está em dúvida sobre o destino que deve dar a uma personagem que, no início da história, matou os próprios pais.
O jornalista disse que também vinha acompanhando a história, publicada em capítulos num portal de literatura da internet.
— É da Natália esse romance. Também estou ansioso pelo desfecho.
— Ah, você conhece a Natália? Eu sou namorado dela.
O sobrinho do professor Teodomiro não compreendeu direito, por conta da voz fanha de Gabriel, e comentou:
— Gosto muito de romances policiais, especialmente de assassinatos em série.
Gabriel seguiu parte da viagem contando ao parceiro o quanto era apaixonado por Denise, a personagem escritora, e o tanto que ele influenciava Natália no desenvolvimento da trama. Percebendo que o acompanhante dormira, reabriu o celular e retomou a leitura.
No banco de trás, dois homens conversavam em voz muito alta sobre um sujeito que se dizia o onomaturgo. Gabriel se interessou pelo assunto, voltou-se para ambos, apresentou-se e perguntou como se chamavam. Um deles respondeu:
— Os dois Josés.
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Cada trecho em negrito corresponde ao título de um conto. Quer saber como cada história termina?
Leia o livro O Onomaturgo e Outras Histórias, que será lançado no dia 19 de julho, no Ponto de Cultura Casa Rosa, na rua General Osório, nº 239, em Capivari, SP.
Você é meu convidado. Apareça!






Mais um excelente conto , estou ansioso para ler a continuação