Criadores de casos #25
Fui ao perfil de um desses "robozos" (robôs do Bozo) que, com a proximidade das eleições, voltaram a infestar as redes sociais, e lá me deparei com a postagem da imagem. Deixei o comentário que segue.
É fato que o presidente Lula acorda toda manhã, por volta das 5h, dá um beijinho em Janja, que continua dormindo, levanta-se, faz seus exercícios físicos, brinca com os cachorros e engole uma xícara de café preto. Sem tempo a perder, deixa o palácio e, solitário, caminha em passadas largas até o STF. Os seguranças que lutem para alcançá-lo.
No prédio da Supremo Corte encontra os onze ministros, todos metidos em seus uniformes de Batman. São os heróis da nação reunidos na Liga da Justiça.
Alexandre de Moraes é o relator permanente dessas reuniões matinais diárias. É ele que prepara a pauta, o que causa certa inveja em Luís Roberto Barroso, que, afinal, é o presidente da Corte e se sente desprestigiado.
Lula chega, soberano. Para na porta da Sala da Justiça, olha para o time reunido em torno de uma imensa mesa ("são onze", pensa; "daria para bater uma bola, mas falta o ‘onze’ adversário"). Olha-os nos olhos, um a um. Todos então se ajoelham e assim ficam por um minuto — sessenta segundos cravados, conferidos rigorosamente por Gilmar Mendes, o decano, que mantém os lábios contraídos enquanto o tempo passa.
Levantam-se e, em coro, lhe dizem "bom dia, presidente Lula!", treze vezes. Luiz Fux não destoa, mata no peito. Flávio Dino pensa numa tirada espirituosa, mas se contém, atento ao decoro.
Lula, sempre mal-humorado (na verdade, já nem mais é ele, pois, como todos sabem, o verdadeiro foi abduzido por extraterrestres salvadores da pátria, que prontamente atenderam aos apelos dos patriotas antes das eleições de 2022 e, desde então, o petista foi substituído por cinco sósias que se revezam no papel. Todos são clones produzidos pelo governo de Israel com tecnologia importada de Marte por Elon Musk e desenvolvida pelos reptilianos da Tesla).
O ministro relator, BatXandão, lê a pauta, uma lista das propostas de maldades a fazer no dia que está só começando. Afinal, como denunciou o sagaz internauta autor da postagem, eles precisam “todo dia criar um caso novo para jogar na imprensa para distrair e tirar do foco do povo tudo o que eles estão fazendo na surdina”.
A reunião sempre acaba se estendendo para além da hora do almoço, pois cada ministro expõe seu voto em defesa de sua proposta. Lula — o clone da hora — examina-as todas, uma por uma. Ouve atentamente os longos, rebuscados e intermináveis votos, escolhe uma delas, no máximo duas, e se retira sem trocar palavra com os ministros.
Antes de ele sair, todos se prostram novamente em respeitosa genuflexão ao clone de plantão. Ao se levantarem, sessenta segundos cravados depois, lhe desejam "boa tarde, presidente Lula!"
O coro vespertino é puxado por Cármen Lúcia, que desse modo revive os tempos em que comandava as rezas de terço no interior de Minas Gerais, e repetido outra dúzia de vezes. Dias Toffoli, agradecido e acabrunhado, acompanha até a porta o presidente, que sai carregando consigo a papeleta em que anotou a tarefa que, em cada dia, haverá de turvar a visão do povo.
À noitinha, após passarem o dia inteiro julgando e trocando farpas e piadas entre si, todos vão em fila indiana, com as togas esvoaçando como se de fato flanassem, até a frente do Palácio onde o presidente encerra seu expediente. Por ter familiaridade com o local, Cristiano Zanin lidera o grupo.
Ajoelham-se novamente por um minuto e, agora puxados por Nunes Marques — traidor dos patriotas, dizem estes —, encerram a jornada desejando, sempre em uníssono, sempre treze vezes, "boa noite, presidente Lula!"
André Mendonça, como nas demais ocasiões, acompanha o relator e demais colegas expressando-se em línguas estranhas. O sósia da hora nem se dá ao trabalho de dar uma espiadinha pela janela. “Mal-agradecido”, balbucia Édson Fachim, que segue a turma e vai embora desapontado. Todo dia.





Excelente, ri muito, gostei muito da fina ironia na análise do comentário do Robozo, vivem em um “Brasil paralelo”